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08/03/10
"A campanha será toda: Serra, presidente; Luiz Paulo, governador; Rita Camata, senadora"

O primeiro mandato de Luiz Paulo veio em 1996 para prefeito de Vitória, sendo eleito com 60% dos votos. Foi reeleito em 2000, no primeiro turno, com 70% dos votos. Em 2006, foi eleito deputado federal, com a expressiva votação de 100.506 votos. Em 2008, foi eleito presidente do ITV (Instituto Teotônio Vilela), órgão de formação política do PSDB.

Com 52 anos, completados recentemente, em um tradicional caldo de feijão, em Vitória, o tucano é engenheiro de produção formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-graduação em Desenvolvimento Econômico (BNDES) e Economia Industrial (IEI-UFRJ).  Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) é um dos nomes colocados na sucessão estadual. Atualmente cumprindo o mandato de deputado federal, e pertencente ao grupo do governador Paulo Hartung (PMDB), reivindicou o direito de disputar o governo. 

Ao agregar a filiação da deputada federal Rita Camata, o pré-candidato passou a correr ao Estado para garantir sua visibilidade e ampliar sua base para além da Grande Vitória. Nesta entrevista a Século Diário, o pré-candidato também fala do orgulho de ter a família Mauro em seu palanque e o discurso de contraponto ao governo Paulo Hartung. Confira a entrevista concedida a Rogério Medeiros e Renata Oliveira:

Século Diário - Deputado Luiz Paulo, o senhor reivindicou em meados do ano passado o seu legítimo direito de disputar o governo do Estado. Por que o senhor quer ser governador?

Luiz Paulo Vellozo Lucas - O PSDB do Espírito Santo tem uma história de muita responsabilidade com o que aconteceu nos últimos anos aqui, principalmente depois que Paulo Hartung foi eleito prefeito de Vitória, em 1992. Foram 12 anos que o PSDB governou a cidade de Vitória e todos os indicadores da cidade deram um salto nesse período. A cidade se reposicionou no ranking das cidades brasileiras e isso foi fundamental para que nós chegássemos ao governo do Estado, sob a liderança de Paulo Hartung. Em 2002, eu fui o coordenador da campanha do Paulo, o PSDB emprestou seus principais quadros para a administração estadual e nós temos um enorme orgulho do salto que o Espírito Santo deu nesse período. O projeto que se delineou com muita antecipação aqui no Estado, fruto também da antecipação do processo político nacional, a aliança do PMDB com o PT é um projeto que nos exclui do futuro, como também excluiu o PSB. Então, esse projeto além de ser excludente, pretendeu ser a expressão da unanimidade, a expressão de um consenso absolutamente inexistente de todos que ao longo desses oito anos contribuíram para os avanços que o Estado deu. A aliança PMDB e PT não tem condições de expressar essa unanimidade. E eu vou mais além, eu acho que para nós, do PSDB, não tem os ingredientes fundamentais para se apresentar para o Espírito Santo como o portador de uma expectativa de consolidar o que foi feito e avançar o que não foi feito. Acho que estes ingredientes não estão postos, é uma aliança com muitos problemas, porque ela se baseou em uma troca. O vice-governador (Ricardo Ferraço) sai do PSDB, vai para o PMDB para apoiar a reeleição do prefeito do PT, um processo muito mais de condomínio de poder, do que propriamente de aliança em torno de um projeto para o Estado. Tem descontentamentos dentro do PT em relação a este projeto, dentro do PMDB também. Ele depois agrega o PDT e o PR, que estão em torno do Magno Malta, onde também existe descontentamentos. Isso deu ao PSDB a responsabilidade de apresentar uma alternativa. Muito mais do que um desejo pessoal, eu não titubeei, desde o primeiro momento em que este quadro foi delineado, coloquei o meu nome à disposição do partido. Eu quero me colocar à disposição do partido para construir um projeto para o “Pós-Paulo Hartung”, que dê conta de defender os avanços desse período e que dê conta da agenda das coisas que não melhoraram nesse período e até algumas que pioraram, como é o caso da segurança pública. Nós lutamos para viabilizar esse projeto primeiro dentro do próprio PSDB, conseguimos consolidar dentro do partido. Nós trouxemos, e isso foi muito importante, os sinais de que poderemos ter o PTB conosco. A aliança e a perspectiva de que Max Mauro e Max Filho não ficassem isolados dentro do processo e pudessem estar no PTB, e o PTB estar conosco, foi muito importante. E eu sou extremamente grato aos Mauro e ao PTB por terem confiado no nosso projeto, entendendo que os pontos de convergência são mais importantes do que os de divergência e, para culminar, a vinda da deputada Rita Camata, na véspera do prazo, enfrentando o desafio de mudar de partido – e se tem alguém que tem razões para mudar de partido, este alguém é Rita Camata, porque o PMDB do Espírito Santo era aliado do PSDB. Rita Camata foi candidata à vice na chapa do Serra, o PMDB mudou de lado na política nacional e na política do Espírito Santo, sem consultar ninguém, e sem consultar a Rita, que é uma das principais figuras do partido –, portanto, ela mudou de partido, na perspectiva de ser nossa candidata ao Senado. Então estamos iniciando esse processo de pré-campanha, a partir de abril até junho, quando haverá a convenção, nós percorreremos as 12 microrregiões do Estado. Vamos lançar o projeto “E agora ES? O Estado que somos e o que queremos ser”, e debater a realidade de cada uma delas e levantar elementos para o nosso plano de governo que será apresentado na convenção.

- Quando o senhor lançou a sua candidatura, houve uma tentativa de desidratá-la, com os comentários de que sua candidatura serviria apenas para erguer o palanque do candidato tucano à presidência, José Serra, no Espírito Santo. O senhor reagiu duramente a esta colocação e conseguiu consolidar seu nome como um dos pré-candidatos ao governo do Estado e um candidato competitivo. Como o senhor avalia esse processo?

- É conhecido de todos que a antecipação da aliança PMDB-PT visou a criar um ambiente de que seria de candidatura única e houve inúmeras ações no sentido de inviabilizar qualquer outra candidatura no campo dos aliados do governador Paulo Hartung. Como se a grande maioria dos partidos que esteve unida por conta dos resultados do governo, pelo talento e pela força do governador Paulo Hartung, aprovasse esta unanimidade, o que não tem o condão de se reproduzir artificialmente. Então, realmente houve muita pressão, nós perdemos muitos quadros, foram mais de 60 pessoas que se desfiliaram do PSDB, e uma pressão muito grande por parte da mídia questionando, duvidando da possibilidade, da capacidade, até mesmo da minha vontade de disputar o governo, e isso é uma página virada. É uma coisa de 2009, uma vitória de 2009, que nós conseguimos, internamente no partido, aqui no Estado, nacionalmente também, consolidar o projeto regional. A responsabilidade política do partido e a minha, ela é uma só. Eu não vejo um partido político tendo tarefas estanques. A nossa tarefa em 2010 é disputar a presidência da República e disputar em todos os estados da Federação um projeto coerente com o nosso projeto nacional. Está claro que o Brasil é muito diferente e está claro que nós não mudamos o Brasil só com o presidente da República. Nós temos que enfrentar os problemas do Brasil em cada estado e na verdade em cada município. Esta tentativa de desqualificar a minha motivação não tem fundamento, não é verdadeira, mas é uma tentativa de me desqualificar, dizer que eu não estou interessado na política do Espírito Santo, etc. Isso é uma bobagem, porque o que está acontecendo no Brasil é o contrário. Os projetos regionais estão cada vez mais coerentes com os projetos nacionais, tanto do nosso lado quanto do lado do PT. Essa é uma tendência nacional.

- Quando houve esta consolidação, houve um episódio, com a saída do secretário de Agricultura, Ricardo Santos, e houve uma reação da base. Em sua opinião, isso foi mais uma tentativa de demovê-lo de seu projeto de disputar o governo?

- No ano passado, a aliança PMDB-PT foi tomando conta do governo como um todo e os espaços de quem tinha outros projetos para o futuro foram sendo constrangidos, muito embora o que uniu essas pessoas todas no atual governo não foi o projeto futuro, foi o projeto atual, e seria perfeitamente possível conviver no governo pessoas que têm projetos futuros diferentes, mas isso não foi possível. Menos por nossa causa do que dos que são hegemônicos no atual governo. Nós fomos excluídos do projeto futuro e depois excluídos do projeto presente.

- O governador Paulo Hartung já escolheu quem vai ser o candidato dele. O senhor tem alguma dúvida disso?

- Eu tenho um respeito muito grande pelo governador Paulo Hartung, pelo talento e pela inteligência dele, e eu aprendi que não é prudente dar conselho a ele e eu não o farei. E tentar interpretar o que ele vai fazer ou deixar de fazer é um exercício que eu também deixei de fazer há muito tempo. Ele é um ator político importantíssimo no Estado e no País e vai conduzir e aplicar o capital político dele nas ações que ele entender que deva fazer. Eu espero continuar a merecer o respeito dele, que eu sempre tive e continuo tendo. Agora o partido que ele está filiado, que é o PMDB, está dentro da aliança com o PT, que é o projeto nacional. Com a exceção de alguns estados, poucos, como Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, no restante, o PMDB está completamente alinhado com o projeto da Dilma (ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, candidata a presidente pelo PT).

- Mas não acha que ele, ao fazer esta escolha, exclui o senhor deste processo?

- O Paulo é candidato ao Senado. Ele ainda não saiu, não se declarou, mas eu acho que ele é candidato ao Senado. Nós só vamos lançar um candidato ao Senado, que é Rita Camata, e vamos trabalhar pela Rita como primeira opção, e nós vamos fazer campanha para um candidato a senador, que é Rita Camata.

- Não vão pedir o segundo voto para o governador?

- A campanha será toda: Serra, presidente; Luiz Paulo, governador; Rita Camata, senadora. E vamos procurar ter boas relações com os outros candidatos. Terão outros candidatos? A gente ainda não sabe. Casagrande (senador Renato Casagrande – PSB) será candidato a governador, não será? Então temos uma boa relação com ele. Agora nós vamos preparar o nosso projeto para a opinião pública. Os ingredientes para fazer o nosso jantar, nós temos. Então nós vamos fazer o nosso projeto e colocar o nosso bloco na rua. Na medida em que o processo avançar, é que vamos saber. Eu não sei como o governador vai fazer a campanha dele ao Senado, se vai fazer completamente alinhado com a Dilma, completamente alinhado com Ricardo Ferraço, fazendo dobradinha com o Magno Malta, não fazendo. As dúvidas estão do lado de lá. Do meu lado, não há dúvida. A linha é essa e não vai mudar.

- O senhor se considera um candidato sem amarras, então?

- Amarras ao nosso projeto. Nós temos um projeto que não depende de circunstância. Os ingredientes nós temos. As alianças necessárias para ter tempo de televisão, candidatura a senador, apoio dentro do partido, chapa proporcional, então nós vamos à luta.

- Mas a proporcional está contaminada, não é? Porque o DEM e o PPS querem pular fora.

- Eu acho que o processo vai aplainar essas arestas. São arestas pequenas, tendo em vista o que aconteceu aqui no Estado. Nós tínhamos todos os partidos em torno do governo. A partir de abril, com a desincompatibilização, com os partidos se definindo, os palanques em cada estado se definindo, aproximando da convenção, eu não tenho dúvida nenhuma de que o DEM e o PPS, que são aliados do PSDB em todos os estados do Brasil, serão aliados aqui também. Não vai ser nenhuma imposição, vai ser uma imposição da política.

- O senhor tem conversado em nível nacional com as lideranças do DEM e do PPS...

- Claro.

- Embora não haja verticalização, a tendência dos partidos é seguir a orientação das nacionais, não é?

- Claro. Até por uma questão de valores. Hoje nós somos um bloco. O pessoal do PPS até batizou de BDR (Bloco Democrático Reformista) e eu gosto muito desta formulação do PPS, porque o que une o PPS ao DEM e ao PSDB é precisamente uma agenda democrática reformista. E essa é a principal diferença do projeto liderado pela ministra Dilma, que é um projeto de condomínio de poder. Não é um projeto democrático reformista. É um projeto anti-reformista, um projeto que confunde conceitos em termos de política de desenvolvimento, que confunde Keynesianismo (teoria oposta ao neoliberalismo) com estadismo. Tem um monte de confusões que eles fazem do lado de lá. E a essência da governabilidade é baseada nos espaços de poder. Quem tem feito a melhor crítica desse projeto é o Ciro Gomes (PSB-CE), que já está em campanha, mas quando o Serra (José Serra, governador de São Paulo e presidenciável tucano) estiver em campanha, ele vai demolir este projeto. Mas enquanto estiver no governo de São Paulo, ele não vai ser o líder da oposição. Só depois. Então a questão de DEM e PPS é uma questão de tempo, a gente tem que respeitar os quadros que estão dentro do governo, que vão sair agora em abril, as conversas das direções partidárias. É totalmente legítimo, o DEM quer fazer federal, o PPS quer fazer federal. O fato é que não adianta, porque são projetos mutuamente exclusivos. O projeto PMDB-PT é um projeto que nos exclui. 

- Desde o início, o senhor mostrou que não há interesse em fazer oposição ao governo Paulo Hartung, mesmo porque o PSDB participou deste processo de construção, mas dentro desta chapa tem os “Mauro”, que estão no PTB com o objetivo de fazer o contraponto, o que, inclusive, o candidato a deputado federal Max Filho falou na entrevista que concedeu a SD, na semana passada. Como conciliar esses dois discursos no mesmo palanque?

- Nossa aliança é uma aliança para o próximo governo, não é uma aliança para o atual momento. Se fosse para o atual momento, não teria como conciliar. Mas ela é para o governo que se inicia em 2011. Nós temos diferenças de opinião, de posicionamento, sobre vários temas e avaliações diferentes em relação ao Max Mauro e ao Max Filho, mas o que nos une, hoje, é muito mais forte do que o que nos separa, do que nos divide. A integridade moral dos Mauro é um patrimônio muito forte, muito positivo. São pessoas íntegras, pessoas de bem, são pessoas que estão na política por vocação. Uma família tradicional de políticos, há décadas. Aliás, no município de Vila Velha, vem do pai do Max Mauro e do meu tio-avô, que foram adversários em Vila Velha: Gil Vellozo e Saturnino Mauro. Então, as famílias Vellozo e Mauro já foram aliadas e já foram adversárias, talvez há mais de 50 anos. São pessoas do meu mais alto respeito e num momento em que a agenda do País está muito marcada por estas questões de natureza ética, de natureza moral ter os Mauro com a gente, eu quero dizer que eu tenho muito orgulho e tenho gratidão por eles terem acreditado no nosso projeto e que foi conversado dessa maneira. Isso aqui nos une, isso aqui nos diferencia, nós respeitamos vocês como vocês são, vocês nos respeitam como nós somos. Nosso entendimento é em relação ao próximo governo e aí eu tenho certeza de que eles serão importantes para construir um modelo de trabalho e de projeto para o Espírito Santo.

- Então seu projeto trabalha com a ideia de que estamos entrando em um outro momento do Espírito Santo?

- Exatamente.

- E, nesse contexto, como que o candidato pensa política social? Na educação, o ensino médio tinha cerca de 146 mil alunos e houve um decréscimo, a questão da segurança, como imagina, e a questão da saúde. A segurança é crítica, o candidato tem andado o Estado e sabe que a criminalidade chegou, inclusive, no interior. Há uma falta de reposição de militares, um déficit de cinco mil militares. Como o candidato vê isso em um projeto de futuro?

- São áreas críticas. No caso da segurança pública, quando eu fui prefeito de Vitória, um belo dia de dezembro eu acordei às 6 horas da manhã, com um jornalista da TV Gazeta me colocando no ar, no Bom Dia, para saber como eu reagia às manchetes da Folha de S. Paulo: “Vitória é a capital mais violenta do Brasil”. Isso foi em dezembro de 1998. Eu estava no meu segundo ano de primeiro mandato de prefeito e eu confesso a você, que antes desse dia, pela manhã, o que nós tínhamos pensado em segurança na prefeitura de Vitória, foi... eu transformei a Secretaria de Cidadania em Cidadania e Segurança Pública, nós tínhamos um Plano Municipal de Segurança Pública, eu tinha feito esse plano com a Polícia Militar, Polícia Civil, as escolas e entidades comunitárias, e a nossa posição era uma posição de auxiliar as instituições permanentes, não na posição de protagonismo na prefeitura. Isso em dezembro de 1998. Com essa manchete, esse assunto saiu, e naquela época isso não estava na lista de prioridades dos moradores de Vitória. O morador de Vitória se espantou com aquela manchete, achou que não era verdade. Não é verdade que era a mais violenta, mas os índices de homicídio per capta eram realmente, naquela ocasião, os piores das capitais brasileiras. E a partir dali eu passei a me envolver muito nesse debate. Na campanha de 2002, que eu coordenei a campanha do governo Serra, nós tínhamos metas sobre segurança pública com um discurso quase igual ao do Lula. Inclusive eu fui convidado, como presidente da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), para ir ao debate no instituto de cidadania do PT, para debater a questão da segurança pública. Estou convencido de que o Brasil precisa fazer da segurança pública um Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), e se faz parte do discurso do Lula, e eu acho que dos indicadores, um que piorou nestes últimos oito anos, foi a segurança pública. Tem falha de concepção, de estratégia. Não é só uma questão de gerência, de estratégia mesmo. Acho que falta nacionalmente isso, porque o governo Lula trocou a ideia do SUSP, pela ideia de uma Política Federal politizada e de ações midiáticas. E onde está melhorando isso de verdade, primeiro em São Paulo e agora no Rio de Janeiro, com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Estão liberando os territórios das favelas do Rio de Janeiro com as UPPs, que é uma coisa para valer. E aqui vamos ter que fazer um planejamento. E tem que tratar as instituições permanentes, não é. Os mecanismos de financiamento da polícia são um horror. Não tem mecanismo de financiamento. Eles dizem que tem SUSP, não tem SUSP. No SUS tem mecanismo de financiamento. Então em cada um desses setores, tem um diagnóstico da situação atual, tem a realidade, tem os indicadores. Eu sou absolutamente um técnico em políticas públicas, no sentido de vermos modelos, onde o problema é financiamento, onde o problema é gestão, onde o problema é modelo, é estratégia. Eu acho que, na segurança pública, tem problema de financiamento, tem problema de modelo e tem problema de gestão.


- E na educação?

- Na educação, eu vejo hoje menos problema de modelo e de conceito. Eu acho que tem muita coisa que nós já descobrimos sobre educação, que mais uma vez São Paulo e Minas têm muito exemplo para dar. Os indicadores da educação são a essência, e isto tem a ver com a motivação do professor, com a qualificação e com a avaliação dos resultados. Estamos com um trabalho que o Paulo Renato (ex-ministro da Educação de FHC) fez em São Paulo. Eu sei que o Haroldo (secretário de Educação do Estado Haroldo Corrêa) andou trazendo algumas coisas, mas eu sei que isso aqui precisa avançar bastante. Mas eu acredito que a avaliação, e a avaliação do aprendizado do aluno e o envolvimento do professor dentro deste processo. O salário tem que ser variável e depender do desempenho dos alunos. Se os alunos aprenderem mais, ele vai ganhar mais e um processo de aprendizado contínuo. Eu fui professor muitos anos, fui professor universitário, e acho que a nossa escola ainda é adestradora. O mercado de trabalho quer o cara que crie, o inovador. E se você for para a sala de aula e for criativo e inovador, você vai ficar reprovado. A preocupação da educação tradicional é de disciplinar o aluno, ou seja, tolher a iniciativa dele. Você chega às escolas hoje e percebe que os alunos mais problemáticos são os mais bem dotados. São os que precisam ser estimulados para desenvolver o seu potencial e aqui na educação tradicional nós estamos emburrecendo e transformando os alunos em soldadinhos de chumbo. Esse é o bom aluno, é o que faz o dever de casa, que obedece a professora. Nós precisamos virar a educação de cabeça para baixo nesse sentido e fazer o professor, que hoje é profundamente ideologizado, motivado dentro do processo educacional. Você tem que saber se o professor está lá porque tem vontade de se envolver com o processo ou se ele está lá para fazer campanha política, para ensinar ideologia e não matemática, português, ciências, isso faz toda a diferença.

- E a saúde?

- Na saúde nós temos o mesmo problema da segurança. De financiamento e de gestão. Não temos de modelo. Eu sou totalmente a favor do SUS. No governo do PT o financiamento caiu vertiginosamente e caiu porque eles não aplicaram corretamente. Usaram para saneamento, para Bolsa Família, claro que ajuda na saúde, mas não é isso que diz a obrigatoriamente, a emenda 19, que foi feita quando Serra era ministro, que obriga a União, estados e municípios a desprenderem X% para a saúde. A União não está desprendendo o que manda. Agora tem outras coisas. Tem problema de gestão. Acho que o modelo do SUS é o melhor. Inclusive, outro dia, num debate do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no Congresso americano, foram citados documentos sobre o SUS brasileiro. A peculiaridade da saúde é que, ao contrário de todo resto da economia, os avanços tecnológicos aumentam o custo. Nas telecomunicações, o progresso reduz o custo, na indústria automobilística também. Na saúde, aumenta, nos diagnósticos, e a mudança tem que ser feita no gerenciamento. A questão da intermediação política também é gravíssima. No período do Serra, no ministério ele enfrentou isso e enfrentou dramaticamente. Ele não tinha esse negócio de diretor de escola e diretor de hospital indicado politicamente e hoje voltou.

- O senhor é um político típico da Grande Vitória. Foi prefeito de Vitória e agora tem que ampliar sua base para o interior. Qual a estratégia para esta expansão e como a deputada Rita Camata ajuda neste processo?

- Ela ajuda demais. A deputada e o senador Gerson Camata. Embora a  gente ainda não saiba qual o papel que ele vai querer desempenhar no processo eleitoral, eles são fortíssimos no Estado, como os Mauro também tem muita penetração no interior. A minha posição hoje é a seguinte: eu acho que a eleição neste momento é de empate técnico na Grande Vitória e a minha desvantagem no interior é muito grande. Dos três nomes, eu estou realmente em terceiro lugar e em algumas regiões eu sou completamente desconhecido.

- Mas na Grande Vitória está metade do eleitorado...

- Na Grande Vitória está 50% do eleitorado, tem empate técnico. Então eu imagino que a minha condição de competitividade é muito grande. Eu estou muito animado, porque na campanha eu posso vencer o desconhecimento. Mas onde eu sou conhecido, que é na Grande Vitória, deu empate técnico. Em Cariacica e na Serra, foi muito melhor do que eu imaginava, praticamente empatado com o vice-governador, que está na mídia todo dia, que está aí fazendo convênio e tal. No interior eu espero chegar com minha campanha e de ser competitivo e disputar a eleição no interior também. Com os instrumentos de comunicação que a campanha vai colocar vou ser conhecido, vou visitar, vai ter comício, vai ter televisão, vai ter rádio.

- Dos nomes colocados, o senhor é o que lida melhor com os mecanismos 2.0. Como o senhor avalia esta posição? Considera uma vantagem?

- Isso é decisivo. A internet no Brasil e no Espírito Santo não é diferente, ela nos deu primeiro a comunicação entre os militantes, internamente mudou completamente. Antigamente a gente tinha que ligar para as pessoas. Hoje, eu te acessei no Facebook, eu vi o seu Twitter, as mensagens. Então quem está dentro do processo está conectado 24 horas.

- A resposta do eleitorado é imediata também.

- Estou falando ainda do cabo eleitoral, do mobilizador. Ela funciona como organizadora do time. E como agregadora, quantas vezes, eu ouvi na eleição: “Poxa! eu quero ajudar na sua campanha, como eu faço. Não me chamam para a reunião. Eu tenho tantas ideias, queria colocá-las”. Você não tinha como. Hoje você consegue agregar instantaneamente através da internet o cara que quer participar. O cara interessado, eu tenho uma tarefa para ele hoje. Eu não tinha isso antes.

- Mas a cobrança também é imediata.

- Tudo bem. Mas isso é diferente, por exemplo, da internet na campanha americana, que o voto é voluntário, o voto não é obrigatório. Então quando você ganha o cara para votar. O importante para o cara ir lá votar. Ela foi importante lá no voto. Não quer dizer que aqui ela não seja importante no voto não, mas onde ela é decisiva é na organização da maneira de fazer política. Depois, ela funciona também na ligação com os veículos de comunicação. Antes eu dependia da Gazeta e da Tribuna botar jornalista para cobrir a minha movimentação, viajar para eu sair no jornal, no rádio. Agora não. Eu coloco na internet. Aqui tem foto, tem depoimento, quem quiser pegar, pega. Aviso no meu Twitter, que quem quiser vai no meu site e tem toda a minha programação: hoje estou em Cachoeiro, com foto, com entrevista. Se o cara quiser botar, bota, se não quiser, não bota. Isso democratiza, porque o cara não pode dizer que não sabia. Se tiver tendencioso, se ele quiser cobrir só um lado, tudo bem, mas ele vai ficar numa saia justa.

- Mas a classe política capixaba não entendeu muito bem ainda essa importância, não é?

- Tanto é que nós colocamos no Twitter, por exemplo. Outro dia, o Ricardo Ferraço colocou lá que: “vou colocar meus assessores para atualizar o Twitter porque eu não tenho tempo. O que vocês acham?”. Aí um internauta falou: “Olha o Renato Casagrande e o Luiz Paulo estão eles mesmos atualizando”. Quem aperta o botão pode ser o assessor, mas eu passo por telefone cada movimento. Para isso eu quero chamar a atenção, para isso eu não quero. E eu não quero ficar abusando também. Quero chamar a atenção para coisas que sejam de interesse, porque eu sou candidato a governador, porque sou deputado federal.

- Para terminar, eu queria que o senhor fizesse uma avaliação de um cenário com quatro candidatos: Luiz Paulo, Renato Casagrande, Ricardo Ferraço e Brice Bragato. E um cenário com três candidatos, no caso Renato Casagrande não disputar a eleição.

- Nós vamos fazer o nosso jogo. Eu tenho muita vontade de fazer uma aliança com o PSB. O Renato Casagrande é um grande parlamentar, é uma liderança muito positiva no Estado, faz um grande mandato, tem todo o direito de ser candidato. Acho que ele está motivadíssimo para ser candidato e ele é um bom candidato. Nós temos muitos pontos em comum. Nossa grande divergência é o palanque nacional, mas se nós formos adversários aqui, nós vamos concordar com boa parte das coisas, vamos divergir certamente do governo federal e o Espírito Santo e o projeto Dilma. Mas eu acho que as diferenças entre eu e Renato são menores do que as divergências. Mas a minha posição é de muito respeito e, se ele for candidato, acho que vai ser bom.

- A participação dele é garantia de segundo turno...

- Eu não fico falando muito em questão de resultado eleitoral. Eu fiz engenharia, estatística, então eu tenho um cuidado danado com esse negócio de probabilidade. Aliás, tem um livro ótimo que eu aconselho, chamado “O andar do bêbado”. É de um físico americano, mostra que muitas das coisas que acontecem, acontecem por acaso. Então eu não trabalho assim: isso seria melhor, vai dar ou não vai dar. Eu vou fazer o melhor possível do meu jogo. Eu acho que se o Renato decidir não ser candidato, eu espero que o PSB considere a proposta do PSDB de aliança. É isso que eu quero. Quero discutir com o PSB estadual e com o PSB nacional, uma proposta aqui. Nos já temos uma aliança na Paraíba. Nós vamos apoiar o prefeito de João Pessoa, do PSB, ao governo da Paraíba. No Paraná, o PSB vai apoiar o Beto Richa. Isso também já está alinhavado.

- Até porque do lado de lá não tem espaço, não é?

- Pois é. Aqui o PSB sofreu o mesmo processo de exclusão que o PSDB sofreu. E nós temos muitas afinidades também nos projetos municipais. Estivemos juntos em Guarapari (sul do Estado), estivemos juntos em Colatina (noroeste do Estado), estivemos juntos em São Mateus (norte do Estado) e temos muita afinidade. Estivemos juntos em Vitória, na minha primeira eleição. Então, eu gostaria muito que se o PSB decidir não ter candidatura própria, que eles considerem a nossa proposta de aliança. Porque o Renato tem mais quatro anos de Senado. Pode ser muito bem o nosso candidato daqui a quatro anos e no final do mandato dele. Nós também não decidimos vice, então somaria na chapa proporcional. Uma vice ajudaria a gente no interior, o Renato ajudaria a gente no interior. A minha posição na Grande Vitória é melhor do que a dele. Mas se ele decidir ser candidato, também vai ser uma coisa positiva para o processo, porque despolariza e vai agregar qualidade ao debate.



Fonte: Jornal Século Diário

 

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