A cidade de Vitória não está bem cuidada. Jardins e praças estão mal preservados. Moradores de rua e usuários de drogas ocupam cada dia mais espaço: acampam em locais públicos, como a Praça dos Namorados, dormem nas calçadas e sob marquises de lojas ou prédios residenciais, ameaçam comerciantes e transeuntes e cometem furtos, sem serem incomodados pelas autoridades locais. A prefeitura atrasa a execução de obras, acumula dívidas e adota o velho adágio: "Devo, não nego, pago quando puder".
Problemas como a violência praticada por usuários de drogas e moradores de rua são também uma atribuição do Estado, da Segurança Pública. Mas a prefeitura tinha um trabalho social que se mostrava mais atuante, com abordagens de rua e encaminhamento para abrigos e ressocialização. Parece agora lavar as mãos.
Falta transparência e zelo com o uso do dinheiro público. O caso dos quiosques de Camburi é talvez o mais emblemático. Em agosto do ano passado, quando foi divulgado que cada quiosque custaria R$ 1,14 milhão, o prefeito João Coser reconheceu que o valor era "muito caro", mas que não poderia fazer nada porque se tratava de um projeto técnico. Dois ou três dias depois deu um prazo de 30 dias para sua equipe rever o projeto e baixar o custo para R$ 714 mil. Numa só tacada foram cortados R$ 400 mil, como se fossem gordura. A obra, prometida para o verão passado, está paralisada, aguardando a modificação dos projetos na Caixa Econômica, o órgão que financia o investimento.
O gasto com os jardins, com os contratos de manutenção das áreas verdes públicas da cidade, subiu 77%, passando de R$ 29,7 milhões para R$ 52,7 milhões, por um período de 30 meses - reajuste que está agora sob investigação do Ministério Público. A decoração de Natal, de gosto duvidoso, custou R$ 3,4 milhões, ou R$ 800 mil a mais que no ano passado.
Enquanto isso, a dívida com empreiteiros é de R$ 35 milhões, oficialmente, mas informações do mercado dão conta de que chegaria a R$ 60 milhões. A despesa com pessoal subiu 73% entre 2005 e 2009, chegando a R$ 536 milhões por ano.
Obras importantes, como a nova Ponte da Passagem e a duplicação da Avenida Fernando Ferrari, não teriam sido concluídas sem o socorro do governo estadual. Tudo isso indica, no mínimo, falta de zelo e de foco no uso de verbas públicas.
Percebendo, talvez, que sua equipe precisava mesmo de um choque de gestão, o prefeito concluiu neste início de ano uma reforma no secretariado, com mudança em dez pastas, incluindo Fazenda, Transportes, Trabalho e a CDV, a Companhia de Desenvolvimento de Vitória. O novo titular da Fazenda assumiu falando em austeridade. A nova secretária de Comunicação sugeriu reposicionamento da imagem da administração, para superar a agenda de crise. A prefeitura também já suspendeu gastos com diárias, locação de veículos e realização de concursos. Espera-se que as medidas tenham o efeito desejado, para imprimir novo ritmo na gestão e tirar a cidade desse estado de letargia.