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Ultima modificação: 22/05/2012 às 05:51:22
Entrevista Tasso Jereissati Tasso Jereissati

O PSDB perdeu a eleição presidencial, mas vai governar São Paulo e Minas Gerais. Qual será o papel do partido nos próximos anos?

 

A população foi bem clara: nos colocou na oposição e nosso papel será fazer oposição. Vamos continuar na mesma linha do primeiro mandato: oposição dura, mas não irresponsável. Quando o assunto for de interesse nacional, vamos discutir e votar os projetos. A diferença é que, ao longo do primeiro mandato, as nossas diferenças com o governo aumentaram. No primeiro biênio, não eram tão visíveis os defeitos.

 

 

Quais foram os defeitos?

 

O primeiro, sem dúvida, foi a corrupção. O nível de corrupção é altíssimo, e o que me preocupa não é a corrupção apenas, mas a divulgação da corrupção como um assunto banal. Em função disso, a sociedade tende a ser mais permissiva de maneira geral. Vamos pagar muito caro e por muito tempo por esse clima de banalização da delinqüência.

 

 

O sr. atribui a vitória de Lula exclusivamente a essa banalização? Não faltou ao PSDB ter mostrado um programa claro para o país?

 

Não culparia só o PSDB. O que existe é uma coisa a mais que realmente não sei explicar, diria que é necessário um estudo aprofundado. Depois que intelectuais, artistas, gente de alto nível de formação colocou tudo o que aconteceu no governo Lula como razoável e normal, realmente é preciso uma revisão.

 

 

O sr. acha que o segundo mandato será diferente?

 

Nada faz crer que será diferente. Houve erros brutais na economia, o Brasil perdeu um dos momentos mais brilhantes e felizes da economia mundial nos últimos 50 anos. Jogamos for terra a oportunidade de crescer.

 

 

Mas o PSDB soube apresentar uma alternativa?

 

Não é por culpa nem do candidato nem de ninguém. Todos nós devemos ter cometido algum tipo de erro. Perdemos as eleições diante de um governo que teve o maior número de casos de corrupção na história, um crescimento medíocre comparado ao mundo e a deterioração do serviço público -está aí o apagão aéreo.

 

 

Geraldo Alckmin era o nome certo para o contraponto?

 

Não dá mais para discutir isso. Seja quem fosse o candidato, o Brasil quis eleger Lula.

 

 

O partido tem dois candidatos para 2010, José Serra e Aécio Neves. Mas terá um programa novo a apresentar?

 

O PSDB vai se debruçar sobre isso não daqui a quatro anos, mas já. Temos consciência de que um dos problemas é que não ficou claro para a população, além da questão ética, por que trocar. A questão da privatização foi colocada de uma maneira confusa. Vamos buscar, a partir do início do ano que vem, rediscutir nosso programa, feito há 20 anos. O mundo hoje é outro. A social-democracia é outro conceito. Temos de deixar claro qual é a nossa diferença em relação ao PT. O PT era um partido socialista, marxista, hoje se diz um partido social-democrata também. Ficou muito perto de nós.

 

 

É a refundação?

 

A nossa proposta é começar a correr o Brasil inteiro juntando pensadores de todas as regiões numa coordenação bem estruturada para desaguar, até a metade do ano que vem, num congresso que escreva o nosso programa. Não sei se a palavra correta é refundação, mas a atualização do programa e das pessoas.

 

 

O PSDB perdeu a interlocução com as camadas mais pobres da sociedade?

 

A ponta da sociedade não tem formação política ou militância em torno de uma proposta teórica. Por isso, lhe interessam os programas que tenham a ver com seu dia-a-dia. O Plano Real nos deu enorme acesso às bases mais excluídas. Agora, o projeto Bolsa Família fez esse papel e se contrapôs à questão da corrupção. A universidade é difusora de opiniões e visões, passando pelos extratos das forças liberais, da classe média. É esse caminho que temos de voltar a percorrer, inclusive pelo sindicalismo.

 

 

Como o partido se prepara para enfrentar o desgaste de uma disputa acirrada entre Serra e Aécio para 2010?

 

Não podemos evitar que isso ocorra. Trata-se de um ótimo problema, um problema de um partido que tem quadros e expectativa de poder. Ruim seria se não tivéssemos nomes para apresentar. Essa disputa interna vai acontecer de maneira equilibrada e saudável, como em todos os grandes partidos do mundo.

 

 

PSDB e PFL continuam juntos?

 

No Congresso, continuamos muito unidos. Somos fortes, principalmente no Senado, mas só se unidos. Definir alguma coisa para daqui a quatro anos é muito difícil. Até a chapa Serra-Aécio, Aécio-Serra é possível. Eleitoralmente, hoje, parece imbatível.

 

 

O fim da reeleição é uma pauta para o próximo ano?

 

A reeleição no Brasil não deu certo. Nós fomos os pais do projeto, mas persistir no erro é um equívoco.

 

 

O sr. fica na presidência do PSDB até o final do mandato, em novembro de 2007?

 

Não precisa ser até o fim do ano que vem. Queria terminar [o mandato] nesse congresso [do partido], perto do meio do ano.

 

 

Alckmin poderia sucedê-lo no cargo?

 

É normal que surjam especulações, pretendentes e favoritos de determinados grupos. Ele se firmou como liderança nacional, mas disse para mim que não tem esse desejo.

 

 

O sr. sofreu uma dura derrota no Ceará. O partido conseguirá se reerguer no Estado?

 

No Ceará, mais do que no resto do Brasil, o PSDB precisa de reciclagem. Nenhum partido no Brasil conseguiu ser poder por 20 anos consecutivos. Nós mudamos o Estado do Ceará, mas cometemos uma série de equívocos políticos, e não administrativos, que levam a uma mudança no humor do eleitorado. Estamos pagando por isso.

 

 

O sr. acha que o presidente Lula fará um sucessor nos próximos quatros anos?

 

Acho muito difícil o Lula fazer um sucessor. Ou ele faz uma mudança radical em relação ao primeiro governo ou não vai precisar nem de PSDB nem de PMDB nem PFL. O governo, no primeiro ano, desfrutou da herança bendita. Agora a herança é dele mesmo.

 

 

A oposição está dando uma trégua ao governo?

 

Não é uma trégua. Mas acusações gravíssimas rodaram o país quase diariamente, alertamos a população, mas ela resolveu dar crédito ao governo. Isso nos decepcionou e estamos num período passageiro de depressão pós-eleitoral, de ressaca. É tempo de nos reorganizarmos também.

 

 

Enquanto isso o presidente acena para uma conversa com o PSDB...

 

Quero dizer uma coisa definitiva sobre isso. Essa tentativa de diálogo, nós sempre dialogamos, no Congresso nada se aprovou sem que houvesse diálogo. Agora, existe uma diferença gigantesca entre diálogo e cooptação. Existem os cooptáveis que vão pelos caminhos dos cargos, do Orçamento, até do mensalão. Nós somos incooptáveis.

 

 

O sr. disse que o partido pode, eventualmente, conversar sobre temas. Ou seja, o senhor aceitaria ir ao Planalto?

 

De uma maneira formal, se houver a necessidade de atravessar a rua, isso pode ser feito, mas o palco natural da negociação é o Congresso.

 

 

O que acha de os governadores do PSDB irem ao Planalto?

 

Uma coisa é o governador Aécio ou o Serra se encontrarem com o presidente da República. Mais do que natural, é necessário. Seria irresponsabilidade e até prevaricação se não houvesse, é uma conversa institucional. Ali são interesses de Estados e não existem partidos políticos. Agora, uma negociação entre presidente e senador, pode até haver, mas com características bem definidas.

 

 

Esse conselho de ex-presidentes da República, proposto pelo presidente Lula, pode dar certo?

 

É factóide. Porque é uma instância desnecessária à democracia. Se estivéssemos num momento de guerra...

 

 

Como deve ser a discussão para as presidências da Câmara e do Senado? O PSDB apoiaria o PFL no Senado?

 

A posição do PSDB será de não forçar situações e tentar construir uma solução que dê mais independência às Casas. Se o PFL tiver um candidato com condições de pleitear, com a adesão de mais partidos, é nosso parceiro natural.

 

 

O Senado será a Casa de resistência da oposição?

 

O Senado tem sido o grande ponto de resistência e equilíbrio ao governo do PT e ao tipo de exercício de poder que o PT faz. Certos excessos que o governo tem vontade de cometer foram evitados devido a esse número expressivo de senadores de oposição.

 

 

Na eleição, falou-se muito que o presidente Lula era o candidato dos pobres contra as elites. O país ficará dividido?

 

O Lula vai ter que mudar muito, porque do ponto de vista histórico e político, quando a classe média tem uma visão negativa sobre um governo, ela acaba preponderando sobre a sociedade. Hoje a visão da classe média é muito negativa, principalmente na visão da questão da honestidade, e isso tende a se espalhar.

 

 

Qual seria o melhor nome para conduzir esse processo de revisão programática do partido?

 

Não vejo ninguém nesse país mais preparado para fazer um trabalho de organizar o programa, com visão moderna do mundo do que o intelectual Fernando Henrique Cardoso. Estou num processo de convencimento para que ele coordene essa discussão.

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