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Ultima modificação: 22/05/2012 às 05:57:21
"Eu vou fazer, de ponta a ponta, um choque de eficiência na gestão pública" Geraldo Alckmin
Em entrevista exclusiva ao Estado, o governador Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à Presidência, disse que as questões centrais de seu programa de governo serão emprego e renda, com grande ênfase na educação. Ele se confessou cativado pelas teses desenvolvimentistas como remédio para ativar a economia brasileira, que vê como capazes de dar um choque de eficiência na gestão pública. Deixou claro que fará mudanças na política econômica. A palavra mais repetida no seu vocabulário de candidato é crescimento; a segunda é emprego.
 
Alckmin afirmou que, se eleito, enviará ao Congresso na primeira semana de governo duas reformas que considera essenciais para uma mudança estrutural no Estado brasileiro. A primeira é uma reforma política cuja base será a fidelidade partidária; a segunda, uma reforma fiscal que seria o sustentáculo de um choque de eficiência na máquina pública e base para a recuperação da capacidade de investimento do governo federal.
 
Segundo o candidato oposicionista, o Brasil ainda está pagando o custo PT, que até hoje obriga o governo a adotar doses mais altas da ortodoxia econômica. E sentencia, com voz de médico: A diferença entre remédio e veneno é uma questão de dose. Ele disse que, ao viajar pelo Brasil, ficou abismado com a quantidade de obras federais paradas.

E garante ter o remédio para isso: atrair a iniciativa privada para trabalhar com o Estado.
 
 
Se eleito, quais as medidas da sua primeira semana de governo?

Na primeira semana, todas as reformas na mesa, avançar, correr. Que reformas? A reforma tributária. A palavra é eficiência, eficiência tributária, eficiência de logística. A reforma política, fidelidade partidária.
 
 
Como avançar na mudança sem romper os padrões de equilíbrio?

Primeiro, a questão fiscal. Se você ouvir economistas de qualquer espectro, pode ter diferenças de enfoque, mas é unânime: se não enfrentarmos a questão fiscal, vamos ter um crescimento menor do que poderíamos ter. Em razão disso, e concomitantemente, você pode ter uma política monetária melhor. O Brasil ainda está pagando o custo PT. Você passa 25 anos falando uma coisa e depois, no governo, faz outra, isso tem um custo. As doses todas precisam ser mais altas para ter resultado melhor. A diferença entre remédio e veneno é uma questão de dose.
 
 
Por onde começam as mudanças na política econômica?

Mais do que a reforma tributária, que só discute imposto, eu quero fazer a reforma fiscal, ou seja, discutir receita e despesa. Tem coisas que não dependem de legislação, não dependem de mudança constitucional, é vontade política. Não precisa mudar lei, e sim cortar gastos. Quem apaga a luz é quem paga a conta. O governante deve liderar o movimento para gastar melhor. Vou fazer uma mobilização nacional pela mudança, vou fazer, de ponta a ponta, um choque de eficiência na gestão pública.
 
 
O senhor está falando em empregos. Qual a meta?

Essa história de 6, 7, 10 milhões de empregos é bobagem. Prefiro abordar o como fazer crescer, as formas de chegar lá.
 
 
Quais são elas?

Do ponto de vista macroeconômico nós temos uma questão central, a questão fiscal. Ela é um dos grandes entraves ao crescimento brasileiro. Você fica num círculo vicioso. Carga tributária muito alta e mal resolvida. Temos déficit nominal. Uma carga que é o dobro dos nossos pares emergentes.
 
E ainda com uma taxa de juros altíssima que amarra a economia. Duas bolas de ferro que seguram a economia. E essa taxa de juros piora a situação fiscal, pois grande parte da dívida pública interna é referenciada à taxa Selic.
 
 
Como romper com isso?

Se melhorar a questão fiscal, que é uma tarefa hercúlea, vamos poder ter uma política monetária condizente com o desenvolvimento, taxas de juros menores, que melhorarão o câmbio. Não é uma coisa de mágica, é um trabalho que dará resultados fiscais de curto, médio e longo prazos. E com o Brasil crescendo, é mais fácil melhorar o quadro macroeconômico.

O mundo moderno não é aquele em que um tiro mata o tigre. É sofisticado, um conjunto de reformas simultâneas, é oposto do que disse o presidente Lula.
 
Ele disse que o Brasil não tem pressa para crescer. Eu digo que ele tem toda pressa, pois se não fizer os avanços que tem de fazer, vai ser o último da fila, como no ano passado.
 
 
O senhor tem dito que o comércio exterior é fundamental.

Nós precisamos abrir mais mercado. Hoje, comércio exterior é uma questão central. Eu defendo uma ação muito agressiva na área comercial, com acordos comerciais bilaterais, baseados numa palavra: reciprocidade.
 
 
E o câmbio, qual o caminho?

Você pode fazer intervenções pontuais. O governo tem feito, só que não resolve. Porque você tem uma questão endógena.

São dois problemas: um é que, quanto mais alta a taxa de juros, mais você desvaloriza o dólar. O outro é o saldo da balança comercial. Nós estamos sendo vítimas do baixo crescimento. Se o Brasil estivesse crescendo forte, estaria importando mais e o saldo da balança comercial seria menor, e não empurraria o câmbio para baixo. Essas coisas precisam ser tratadas no seu conjunto.
 
 
Por que o PT manteve todo o tempo a mesma política?

A verdade é que eles não tinham um projeto com começo, meio e fim, tinham só o discurso. E tiveram de adotar, então, uma ortodoxia para poder ter um mínimo de credibilidade e confiança. Isso tem um custo.

O presidente Lula e o PT vivem falando que pegaram o País com inflação lá em cima.
Foi tudo risco PT.
 
 
O senhor daria autonomia ao Banco Central?

A autonomia operacional do BC é correta. Mas eu não vejo isso como uma prioridade.
 
 
Como recuperar a capacidade de investimento do governo?

Da década de 70 para cá, o governo foi perdendo capacidade de investimento. Eu viajo pelo Brasil e agora, depois de 31 de março, vou me dedicar a viajar mais. Estou abismado com a quantidade de obras paradas. As obras demoram 10 anos, 15 anos, não terminam nunca. Como é que se recupera isso? Concessões e parcerias público-privadas. Vender ativos não é prioridade. O importante é trazer a iniciativa privada para ser parceira do governo na ampliação da infraestrutura do País, através do modelo de concessões e de PPPs. Eu acredito nas PPPs.
 
Nós estamos com problema de energia. Se o Brasil crescer forte, podemos ter problema de falta de energia.
 
 
Por que as PPPs deram errado no plano federal?

O modelo não atraiu a confiança, porque o governo do PT levou ao descrédito as agências reguladoras, que dão a estabilidade. E faltou respeito aos contratos, que é uma questão importante para trazer o investidor privado.
 
 
Como o senhor vê a maré de vitórias de uma esquerda populista na América Latina?

Não diria que é uma maré. São circunstâncias de cada país. A gente tem de respeitar a política externa de cada país e ter um bom relacionamento com nossos vizinhos. Cada país tem sua singularidade. O relacionamento deve ser respeitoso, independência dos Estados e colaboração. E sem preconceito, de lado nenhum.
 
 
Qual vai ser a marca de sua política externa?

Aprofundar a inserção comercial do Brasil. E cuidar do câmbio. Com a moeda que mais se valorizou no mundo, a competitividade fica prejudicada.
 
 
Alca ou Mercosul?

Na Alca, os EUA estão fazendo acordos com os países e o Brasil acaba perdendo mercado. No Mercosul demos uma marcha-à-ré. A parceria começa pelos vizinhos. A Argentina é um parceiro importante. Deve ser feito um esforço, mas nesses quatro anos demos um passo para trás.
 
 
O senhor é favorável à admissão da Venezuela no Mercosul?

É uma questão a ser avaliada.
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