Na carta que escreveu aos militantes do PSDB nas vésperas da eleição do ano passado, o Sr. afirmou que o partido precisava se diferenciar das demais legendas. Como se diferenciar?
Para começar, sendo mais firmes na defesa do que fizemos. Na campanha do ano passado, perdemos tempo. Houve um certo constrangimento de defender nossas posições. Até a privatização. Foi uma capitulação absurda. Tenho dito sempre: você pode perder ou ganhar uma eleição mas não pode perder a cara.
Partidos que não defendem seu próprio legado não existem. A população não os identifica. Precisamos recuperar nossas conquistas, ou o PT vai passar a faturar com elas. Daqui a pouco a estabilidade vai ser do PT, que trabalhou contra o Plano Real.
Nossas teses com relação à economia foram vitoriosas contra a compreensão de muita gente, inclusive do PSDB, que ficava namorando as teses arcaicas, representadas pelo que se chamava de esquerda. Ganhamos. A adesão ao que propomos foi de tal maneira forte que hoje é algo de todo mundo: câmbio flutuante, responsabilidade fiscal, metas de inflação e de superávit. É bom que seja assim. Mas isso é um patrimônio nosso.
Se a condução da macroeconomia nos aproxima das outras principais legendas, o que nos diferencia?
O PT tem uma visão do Estado diferente da nossa. Uma visão estatizante. Eles mantêm algo do leninismo: a idéia de que o partido toma a vanguarda do trabalhador, do operário, depois o partido ocupa o Estado e este muda a sociedade. Guardaram essa idéia, só que o partido, em vez de ser a vanguarda da classe operária, passou a ser do sindicato. Pegaram sindicalistas e colocaram na burocracia estatal.
Também somos mais profundamente democratas, no sentido moderno da palavra. É claro que há o partido, todo mundo pertence a uma classe, existe o Estado. Mas as pessoas também contam. Ou seja, a mudança não depende apenas da ação coletiva, mas também da deliberação e da ação individuais. Isso é muito forte na sociedade moderna, ligada pela internet. A autonomia do indivíduo é muito grande.
Os sucessivos escândalos não passam a idéia de que toda a classe política é igual e corrupta?
É verdade, é esta a idéia que passa. É impossível controlar toda a máquina partidária e governamental. Agora, a diferença está no modo de reagir. Alguém dentro do partido errou? Errou. Então tem que dizer que errou e não defender. Não tem por que acobertar. Isso não é difícil de fazer, mas é preciso decência. Não podemos jogar ninguém na fogueira nem pré-julgar. Agora, nos casos em que se verifique que há culpa no cartório, não dá para defender.
Nossa diferença tem de ser essa. Qual é a crítica que eu faço ao Lula? É que o Lula até agora passa a mão na cabeça dos mensaleiros. Ele comparou recentemente os mensaleiros a dom Hélder Câmara. Isso é inaceitável. O PSDB não deve ter medo de ser chamado de moralista. Que seja. O que não podemos é aceitar a desmoralização de todas as instituições.
O fortalecimento das instituições depende de uma idéia simples, a mais elementar de todas, mas que ainda custa a penetrar no Brasil: é que todos somos iguais perante a lei e que a lei vale. No Brasil, você tem todo o arcabouço da democracia - eleição, diferenciação entre poderes - mas não tem a alma, que é a igualdade perante a lei e seu valor.
Nossas divergências básicas em relação ao PT estão na concepção do Estado, da democracia e no lidar com o social. Eles lidam com o social dando dinheiro do governo. Nós lidamos com o social mobilizando a sociedade, querendo que as pessoas se promovam socialmente. A visão do PT é mais clientelista.
A sensação que dá é que o debate sobre o Bolsa Família está interditado...
Não podemos ter medo de enfrentar esse debate. As bolsas nós é que criamos. Foi o nosso governo que fez, mas não desta forma. Por que não juntamos tudo numa bolsa só? Porque o Ministério da Educação tinha de se interessar para as crianças ficarem na escola. O Ministério da Saúde tinha de se interessar que as mulheres grávidas fizessem o pré-natal. A Previdência Social tinha de vigiar para não deixar haver trabalho forçado.
O governo Lula juntou tudo isso, dá o dinheiro e não exige contrapartida. Para muita gente isso parece esmola. Não devemos ter receio de dizer o que é certo achando que podemos perder o voto do povo. Nós tanto entendemos a responsabilidade moral de todos e do governo no combate à miséria que criamos as bolsas. Mas não queremos transformá-las em dádivas perpétuas, que esmorecem no povo a esperança de se qualificar para obter trabalho e ter uma vida digna.
Os democratas já não fazem a crítica aos programas sociais da forma que o Sr. está propondo?
Com relação ao PFL, agora Democratas, também há diferenças. Em que sentido? Eles foram nossos aliados em várias circunstâncias. O PFL conseguiu achar um nicho para eles: a defesa do contribuinte. Nós também defendemos o contribuinte, mas somos um partido social-democrata. Queremos que o Estado tenha mais recursos para melhorar a vida do cidadão. Não acreditamos tanto no mercado.
Qual o partido hoje com mais afinidade com o PSDB?
Quem mais se aproxima do PSDB hoje é o PPS. Acho que devemos fazer aliança com o PPS e dar força para as lideranças renovadoras. Certamente, manteremos também a aliança com o PFL na crítica aos desmandos do governo e contaremos com o apoio de setores do PMDB. Há peemedebistas como Jarbas Vasconcelos, por exemplo, que mantêm a independência. Alguns que estão com o governo Lula podem voltar. É preciso colocar isso com mais nitidez e não apenas, como estou fazendo aqui, em abstrato. É preciso se diferenciar por temas.
Quem fez o Sistema Único de Saúde? Nós. Tudo existia no papel. Quem organizou o SUS foi o nosso governo. O PSDB nunca reivindicou que ele fez o SUS funcionar. Parece que temos vergonha dos nossos êxitos. O SUS é fruto do governo do PSDB. Foram três ministros: Adib Jatene, o Carlos César Albuquerque e José Serra. Jatene não era do PSDB, mas César Albuquerque e o Serra sim.
Outro tema: impostos. Quem aumentou imposto no Brasil fomos nós e o Lula. Nós aumentamos porque tínhamos que pagar a dívida, fazer a estabilização. Mas agora chegou a um ponto que não dá para continuar. É possível aumentar a eficiência do governo e reduzir os gastos para diminuir os impostos, sem prejudicar os programas sociais. Mas precisamos dizer quais impostos.
Vamos para o concreto. Nossos representantes têm que estudar para ser mais agressivos, mais propositivos no debate dos temas concretos. Há quinze anos, diziam, para nos desmoralizar, que não saíamos de cima do muro. Éramos o partido do "depende". Defendi, aliás, o "depende". Não somos dogmáticos. Depende. É preciso avaliar as alternativas políticas para cada tema, em cada momento. Isso não é um demérito. Temos um estilo. Nosso comportamento é diferente do PT, por exemplo, que em geral se contenta com clichês ideológicos, sem tomar conhecimento das mudanças da realidade. Precisamos saber valorizar nosso estilo. Estão faltando no Brasil modelos de conduta.
Nas próximas eleições, o PSDB pode perder ou ganhar uma eleição, mas precisa ter marca - de outra forma não adianta. Eleição no Brasil depende de bons candidatos. Aí estamos bem.
No livro do "A Arte da Política", o senhor fala que para sua geração a agenda não foi nem da estabilidade nem do desenvolvimento, mas da democracia. Qual a agenda do Brasil na atualidade?
Nas décadas de 1950 e 1960, era o crescimento. Já em 1970 e 1980, era a democracia. Agenda que predomina hoje é a da distribuição, da igualdade, das políticas sociais. Isso é que passou a ser o pão nosso de cada dia porque na década dos noventa nós reorganizamos o Estado e asseguramos a estabilidade, depois do fim da inflação, trazida pelo Plano Real. Daqui para frente, vamos ter que fazer com que haja elos entre essas coisas. Os militares acreditavam que crescer era o que contava. Crescimento com poluição, que não tem importância, pensavam. E a distribuição vinha por "gotejamento": com o crescimento, sempre sobrariam gotinhas de renda para irrigar a base da sociedade.
O governo Lula é muito assim...
Lula tem um pouco da mentalidade desenvolvimentista dos anos 1970. Para ele, a ministra Marina Silva está atrapalhando o desenvolvimento.
Como construir uma sociedade mais justa?
Nos anos 1990, sustentamos a bandeira da estabilidade e abrimos o debate sobre a igualdade. Hoje, pelo que está posto, acho que não haverá mais igualdade se não houver mais crescimento. E não vai haver crescimento sustentável se não houver ao mesmo tempo a preocupação com o meio ambiente, enfim com temas novos.
Nenhuma pessoa mais esclarecida pensa crescimento nos parâmetros dos anos 1960 ou 1970. Mas não dá para agarrar-se ao tema da igualdade como se fosse uma palavra mágica. Não haverá igualdade se não houver meios para isso. Então, precisamos de um momento de síntese. Um pouco mais de equilíbrio. O PSDB é bom para isso. Como não somos dogmáticos, podemos propor uma sociedade mais harmoniosa, com menos violência, com mais respeito ao meio-ambiente, com mais igualdade. Esses são os temas que estão tocando a vida das pessoas.
E há o tema da violência. É uma questão importante em todo o mundo. Temos aqui o governo de São Paulo, que está fazendo um esforço grande nessa questão. Está trabalhando, mas não está cacarejando os ovos que está pondo. O PSDB tem que cacarejar os ovos que puser na questão do combate à violência.
A questão da violência não vai se resolver apenas com o crescimento da economia. A violência não é fruto direto da pobreza. Isso é um insulto aos pobres. Éramos muito mais pobres no passado e os índices de violência não eram tão altos. É claro que há uma relação com o desemprego, mas ela não explica tudo.
O que o Sr. acha do PAC?
Não acho nada. O PAC é um pouco do que disse acima do governo Lula: é um projeto de impacto, como os militares faziam. Você faz uma roupagem. É como o Fome Zero, uma roupagem. O Ministério do Planejamento parou tudo o que havíamos montado em termos de planejamento. Virou o Ministério do Orçamento. Agora lançaram um projeto de impacto. Juntaram o que havia por aí e deram o nome de PAC. E jogaram na agenda como se fosse uma realidade. Não é realidade ainda. Por enquanto é um protocolo de intenções.
Em um governo realmente democrático, você tem processos, as ações têm continuidade. Em um governo de impacto, você tem imagem. O que vai sustentar o PAC? Quem são os seus gerentes? Estão ligados a quem? Como se coloca isso no orçamento? Como é a parceria com os estados e prefeituras e com o setor privado? Tudo não passa de uma estratégia para dizer que o governo está fazendo alguma coisa. O Brasil está fazendo sim, muita coisa, porque a sociedade está fazendo a sua parte e a economia mundial é muito favorável.
O Sr. diria que o presidente Lula é hoje uma liderança sem projeto?
Hoje e sempre. O projeto que ele tinha jogou fora. Na verdade, não sei se já teve algum dia. Na realidade, ele aderiu ao nosso. As alianças que ele fez não foram montadas para tocar um projeto. Acho que isso é a coisa mais discutível, o maior erro político do governo do presidente Lula. Ele criou uma coalizão enorme ao redor do nada e paga um preço elevado para manter a chamada "base aliada".
Se você for ver os programas que eu escrevi para os meus dois períodos de governo, foram dois livros, verá que nós fizemos o que está lá. Não fizemos tudo, mas fizemos o que está lá. Não fizemos coisas que não estejam lá. Isso não aconteceu no governo Lula. Trata-se de um governo que vai de impacto a impacto, conforme as circunstâncias. É o Fome Zero, o PAC, o biodiesel, o etanol... Na política externa, há uma confusão imensa. Mas sempre vendendo a ilusão que "pela primeira vez na história deste país".
Ele não conhece a história e acha que faz tudo pela primeira vez mesmo. Ainda agora comemoraram a expansão de Itaipu como se as turbinas que giram lá tivessem sido encomendadas e iniciadas por eles - é uma montagem atrás da outra.
Essa aliança não vai custar caro para o Lula logo ali na frente?
Vai. Lula não precisava disso porque, quando o governo dele precisou de votos para fazer reformas, nós da oposição demos os votos. Eles não davam, mas nós demos. Ele fez uma aliança a um preço altíssimo, que desmoraliza o governo, para nada. Fiz uma ampla aliança para ter os 308 votos para aprovar as reformas constitucionais. Tínhamos uma meta. Neste momento não há nenhuma reforma na agenda. Lula fez uma aliança quando não precisa. Distribui cargos a mão cheia. Para quê? No primeiro período ainda havia a ambição da reeleição. Mas agora, alianças espúrias para quê? O PT não tem nem candidato para 2010. Não consegue -nem impedir a criação de CPIs, apesar da tão alardeada base...
O Sr. se encontraria com o presidente Lula hoje?
O normal seria que nos falássemos quando houvesse necessidade ou em função de uma relação pessoal. Necessidade não existe nenhuma. Pela relação pessoal, Lula deveria ter me convidado desde sempre. Se não convidou desde sempre, deve ter havido alguma razão. Hoje querem que eu me encontre com ele para dizer: "Ah, amoleceu. Mais um que aderiu..."
Mas o presidente nacional do PSDB, Tasso Jereissati, se encontrou com Lula no Planalto...
Não podemos confundir as coisas. É natural que Tasso, que é presidente do partido, fale com o presidente da República. É natural, repito. Aqui se transforma um relacionamento natural num drama.
Em artigo recente, o Sr. falou que oposição não deve ser feita apenas no Congresso? Como o Sr. acha que deve ser a relação dos governadores do PSDB com o presidente?
Sou amigo do Cristovam, que era governador do Distrito Federal, então do PT. Dou-me muito bem com Jorge Viana, ex-governador do Acre, também do PT. Zeca do PT, ex-governador do Mato Grosso do Sul, me tratou às mil maravilhas. O governador mais distante era Olívio Dutra, do Rio Grande do sul, de quem eu até gosto. Todos eles trataram comigo constantemente de assuntos administrativos. Todos eles me ofereceram almoço ou alguma gentileza, o Zeca especialmente. Nunca isso foi usado por mim para dar impressão de que estavam aderindo. Ninguém se sentiu assim. Acho que os governadores têm que tratar dos seus estados com o presidente da República, sem comprometimento político.
O que não pode haver é essa confusão, que não vem dos governadores do PSDB, vem de círculos do governo Lula, que usam a mídia para disseminar a idéia de que está tudo no papo. Eu me dava bem com os governadores do PT e com os que não eram do PT também. Cristovam já era meu amigo antes da Presidência. Só porque era governador do PT eu não falaria com ele? O próprio Lula eu conheço há quase quarenta anos.
Qual foi o último encontro que o Sr. teve com Lula?
Agora no enterro de Otávio Frias. Não vou fechar a cara para o Lula. Nem ele para mim. Mas ir ao Palácio do Planalto agora para que? Para sair fotografia dando a ilusão ao país de que acabou a oposição. Todo esse clima nos obriga a ficar com o pé atrás. Cria um embaraço que não era necessário.
Eu já votei no Lula no segundo turno de 1989. Ele já votou em mim para senador na década de 1970. Não precisava criar esse cavalo de batalha. Não tem jeito, cabe ao governo desfazer essa confusão em relação ao Serra, ao Aécio, aos nossos governadores. O próprio governo poderia dizer: "Somos adversários políticos, mas pensamos no país". É evidente que o Serra tem que falar com o Lula. Agora não podemos deixar parecer que diálogo administrativo é automaticamente subordinação política. Isso é obrigar todos os administradores a serem grosseiros.
O Sr. concorda com o estudo da consultoria Tendências que diz que o país vive o melhor momento de sua economia, inclusive melhor que no período do milagre econômico?
Ah, é melhor. Não sei se é o melhor de sempre, porque o começo do século XX foi bom. É um momento muito positivo. E nisso todos os países estão iguais. Todos os países estão atribuindo aos governos locais o sucesso, embora o quadro internacional seja favorável e esteja puxando o crescimento do mundo. A grande virtude dos governos nacionais foi ter surfado na onda global. Agora, poderiam ter surfado melhor. O Brasil não está usando o bom momento para levar adiante as modificações necessárias no Estado e na economia.
Até quando o cenário internacional ficará favorável?
Não se sabe. É difícil prever e nem cabe ao PSDB torcer contra o Brasil, como fez Lula em 1998. Ele foi ao Palácio, com o Cristovam, inclusive. Tivemos uma conversa franca, a crise estava montada e ele disse que estava apostando nela. Eu disse: "Você está errado Lula. Crises no sistema capitalista desaparecem, depois aparecem outra vez". Se houver uma crise, é ruim para todos. Depois da crise não vem o socialismo, vem é mais depressão, dificuldade e pobreza, e nunca redenção. Também não adianta ficar discutindo se a política de juros é essa ou aquela. Você pode discutir se deveria baixar meio ponto percentual. Eu também poderia ter baixado mais ou subido mais. Isso aí é conjuntural.
Como o PSDB entra nisso?
O PSDB precisa entender como funciona o mundo moderno, como é a economia globalizada. Não pode inspirar-se em Hugo Chávez, contra a globalização. Tem que entender a fase atual da economia. Muitos dos nossos ainda não entendem.
Como o Sr. vê as novas lideranças auto-denominadas de esquerda na América Latina, como Chávez, Evo Morales, Nestor Kirchner, Rafael Correa?
A América Latina nunca esteve tão dividida como agora. Ela se fragmentou. O Brasil perdeu a liderança. Foi o que nos aconteceu com a Bolívia, agora com o Paraguai. Nós perdemos espaço. O Brasil perdeu a capacidade de buscar a convergência na América Latina.
O Brasil resgatou de algum modo uma agenda anti-EUA?
O Brasil não consegue ser anti-americano. Eles são muito presentes. Bush vem aqui e desaparece no governo qualquer sentimento nesse sentido. Perdemos tempo com essa história de política de retraimento frente aos países desenvolvidos. A política externa brasileira foi muito equivocada. Perdemos tempo na questão do Conselho de Segurança, fazendo um esforço fora da hora. Deixamos que a América Latina se desintegrasse. O Mercosul é hoje um simulacro de integração. Acho que erramos bastante.
O privilégio às relações sul-sul foi outro erro estratégico?
Num momento em que as noções de sul e norte estão se desfazendo, pois China e Índia são cada vez mais "norte" foi, sim, um erro.
O conceito de direita e esquerda diz alguma coisa hoje?
Depende do que se chama de direita e esquerda. Se esquerda for lutar por mais justiça, eqüidade, participação da sociedade civil nas decisões, tudo bem. Agora, o governo da Venezuela é de esquerda? Por que? Ele é estatizante, é anti-globalização, anti-americano. A esquerda não é apenas anti. Ela sempre foi a favor de alguma coisa. A esquerda é generosa, humanista e propositiva. Eu sigo o cientista político italiano Norberto Bobbio. Vale a pena ler este pequeno-grande livro dele: Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política.
No próximo dia 25 de junho, o PSDB completará 19 anos . Como o Sr. avalia a trajetória do partido?
Criamos o PSDB porque, depois de toda a luta pela democratização, o PMDB havia se transformado naquilo que chamei na época um partido omnibus, "de todos". (Muitos entenderam "ônibus". Tudo bem. São coisas da vida.) O partido havia se descaracterizado. Ou melhor, a característica dele era mesmo juntar todo mundo para derrubar o regime militar. Na transição para se transformar, não numa frente, mas num partido, houve muita dificuldade devido às divergências internas e à tendência de se transformar num partido mais tradicional, mais clientelista. Houve muita pressão das bancadas do PMDB por posições ministeriais no governo Sarney. E nós queríamos dar maior consistência programática a um partido. Essa foi a razão central da fundação do PSDB. E não o fato de ficarmos no poder. Eu era líder no Senado. Mário Covas havia sido líder na Constituinte. O meu relacionamento com Ulisses Guimarães, presidente do PMDB à época, sempre foi muito estreito e continuou sendo até ele morrer. Eu tinha sido líder do governo Sarney porque Tancredo me nomeou. O presidente Sarney me manteve por um tempo. Não nos faltavam oportunidades de poder.
Queríamos uma organização mais programática. Houve discussão até para a escolha do nome. Uma corrente queria que se chamasse Partido Social Democrático, outra, Partido Democrático Popular. Não queria que se chamasse Social Democrático devido à tradição européia. Os partidos na Europa foram estruturados a partir de uma luta sindical. Aqui não é a mesma coisa. Houve uma votação e ficou PSDB. Ficou bom, dando uma conotação de partido com uma vocação democrática e social.
Por que o tucano como símbolo?
Porque se trata de um ave bem brasileira. Simples assim. O importante é que promovemos um debate e montamos um programa bem inovador na época. O partido mostrava que era necessário haver um avanço no Brasil, um aggiornamento. O mundo havia mudado e era preciso avançar, se adequar aos novos tempos. Não víamos - e continuamos a não ver - o Estado como único instrumento de transformação da realidade e procuramos criar um partido aberto às ruas, à sociedade, que tivesse uma conotação democrática.
O estatuto escrito em 1988 será reformulado agora em setembro, no Congresso Nacional do PSDB. Qual a importância dele?
Há nesse estatuto do partido uma coisa interessante que é a possibilidade de formação de núcleos. Não queríamos que o PSDB ficasse viciado - como acabou ficando - nas práticas dos diretórios tradicionais. Fizemos algo interessante: os primeiros presidentes foram rotativos para evitar brigas internas. Queríamos uma coisa mais dinâmica. Mas a força da tradição brasileira foi mais forte do que nossa expectativa.
O partido perdeu a primeira eleição com Mário Covas. No entanto, quando se vê a votação do Brizola e Lula, vê-se que a diferença de voto dos dois em relação a Covas não foi enorme. Pelo contrário, estavam no mesmo patamar. Covas foi um candidato competitivo e deixou uma marca. Fez uma boa campanha. No segundo turno, apoiamos Lula com muita dificuldade. Euclides Scalco e eu fomos encarregados de negociar com José Dirceu e Plínio de Arruda Sampaio. Acabamos apoiando sem acordo programático. Por quê? Naquela altura, o PT insistia em manter posições que só corresponderiam com a prática se fossem conseqüência de uma revolução. E eu já havia vivido no Chile de Salvador Allende. Vi a queda de Jango. Disse: vamos de novo pelo mesmo caminho? O Brasil, nós e o próprio Lula tivemos a sorte de ele não ter ganho naquela ocasião. E nós de não termos apoiado Collor.
Collor tentou cooptar quadros tucanos para o seu governo. Como foi isso?
Muita gente disse que o Mário Covas foi quem impediu que o PSDB participasse do governo Collor. Não é verdade. Tasso e eu tomamos essa decisão. Não por causa da corrupção, da qual àquela altura não sabíamos, mas porque o grosso do governo já estava montado e não teríamos como negociar posições programáticas.
Como o Sr. se tornou chanceler do governo Itamar Franco?
Quando o Collor sofreu o impeachment, Itamar sucedeu-o. E Itamar passou a ter uma relação muito próxima comigo. Aí eu me tornei ministro das Relações Exteriores e logo depois da Fazenda.
Em resumo, o Real alçou o PSDB ao Planalto?
De fato, o partido foi para a Presidência da República por causa do Plano Real. No poder, o PSDB manteve quadros de dimensão nacional. Tinha Franco Montoro, Covas e uma nova geração: Serra, Aécio, Tasso, Teotônio, aos quais se somam hoje Marconi Perillo, Yeda Crusius e tantos outros mais. Enfim, tinha e tem esse pessoal. Somos um partido de quadros.
Durante seus dois mandatos na Presidência, como se comportou o PSDB?
Nos oito anos de governo, nós mudamos muita coisa no Brasil e o PSDB ajudou. Foi fundamental nos embates no Congresso. E não era um partido que exigisse muito do presidente e do governo, como agora faz o PT. Acho até que foi bastante sacrificado para poder dar equilíbrio às forças políticas. Ou seja, não tinha uma vocação clientelista, fisiológica. Todo o partido que vai para o governo tem força de atração, por razões que não são propriamente as de programa. Mas há um limite. Acho que o PSDB não o ultrapassou.
Como o PSDB se relaciona com a classe média?
O PSDB nasceu muito próximo de uma classe média democrática e insatisfeita, que queria uma alternativa para o Brasil. Nascemos como um partido urbano e modernizador, que continuamos a ser.
O senador Sérgio Guerra (PE) recentemente defendeu que o partido volte a ser uma legenda mais próxima à classe média...
Nenhum partido hoje pode ser de uma classe. Agora, as teses precisam ter ressonância na vanguarda da classe média, a que passou pela universidade. Não está na moda, o presidente Lula gosta dizer que não precisa de diploma, mas quem forma a opinião é o segmento médio da sociedade. É assim em qualquer lugar do mundo.
Como o Sr. vê o desempenho do PSDB na oposição?
O PSDB nasceu com vocação modernizadora. Acho que perdemos um pouco disso neste período de oposição. As vitórias do Lula colocaram o PSDB numa posição um pouco mais complexa para tomar o seu rumo. O Mário Covas dizia: antes de qualquer coisa, devemos ter unidade. Vencer uma eleição sem unidade é difícil. Nessas duas últimas eleições, a unidade foi construída, costurada, mas sem amarras.
Hoje o PSDB tem decisões fundamentais a serem tomadas. Algumas internas, com relação à estrutura do partido. Distanciamo-nos bastante do ideal de ser um partido menos tradicional. A militância passou a ser muito mais de gente ligada à burocracia governamental. Perdemos um tanto do contato com a sociedade.
Passei o fim de semana com um conjunto de amigos. E em um certo momento, uma senhora disse: "Nós do PSDB". E ela não era do PSDB. Ninguém era. É uma espécie de estado de espírito, muito mais do que uma ligação orgânica. Isso é bom por um lado, mas ruim por outro. É preciso uma ligação mais forte entre esse estado de espírito e uma relação concreta com o partido.
O PSDB precisa voltar a chamar gente para dentro do partido. Você não chama gente para dentro do partido para discutir quem será o presidente do diretório. Isso é muito chato. Você tem que chamar as pessoas para discutir temas, rumos.
Quando se fala hoje em classe média no Brasil, há segmentos novos. Alguns são até de classe média alta, que se meteram em setores de alta tecnologia. Mas o grosso, não. Está no limite entre a classe popular e a classe média. Por exemplo, existe uma enorme quantidade de pessoas que trabalham com informática, internet, call-centers etc. Essa gente é recém-ingressa na classe média. Ainda não está bem assentada na classe média. Estão precisando de uma palavra. Ninguém se dirigiu a eles e temos que ocupar esse espaço. Precisamos identificar quais são os problemas que esse novo segmento enfrenta.
Não se vence eleição só com votos da classe média apenas. O desafio maior do PSDB não seria sensibilizar os eleitores da periferia?