O pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, disse que não quer acabar com o Mercosul, mas flexibilizá-lo de forma "negociada com nossos parceiros" e revelou que, se eleito, pretende dar funções "mais executivas" à Camex (Câmara de Comércio Exterior). Na semana que passou, o tucano foi criticado pela Argentina por suas declarações sobre o bloco comercial. Abaixo, trechos da entrevista, por e-mail.
FOLHA - O senhor tem falado numa política comercial mais agressiva. Por quê?
JOSÉ SERRA - Nossas exportações cresceram muito até 2008, consequência do aumento de preços e da demanda por nossas commodities. Conquistamos imensos superávits. Mas agora estamos em outra fase. Os superávits encolheram, e o déficit em conta corrente está crescendo, até porque as importações dispararam. Nosso déficit em produtos industriais tornou-se gigantesco: proporcionalmente, exportamos menos e importamos muito mais. Minha preocupação é livrar o Brasil de um estrangulamento externo futuro e sustentar o crescimento do emprego. ![]()
FOLHA - Se eleito, pretende mudar a estrutura do comércio externo?
SERRA - É indispensável fortalecer e agilizar a Camex, dando-lhe funções mais executivas e mais agilidade. O presidente da Camex, subordinado ao presidente da República, deve pilotar as delegações do comércio exterior. A Camex foi criada no governo FHC, em 1995, por sugestão minha, reunindo representantes de quatro ministérios, além do BC. Vem tendo papel positivo, mas aquém do que hoje se necessita. ![]()
FOLHA - Há outras mudanças a fazer, na sua opinião?
SERRA - A área de defesa comercial do Brasil ainda é pouco atuante e mal equipada -e isso não vem só do governo do Lula. A abertura comercial do início dos anos 90 exigia o fortalecimento dessa área, como acontece, por exemplo, nos EUA. Isso não foi feito na medida exigida. Há demora no exame dos pedidos em casos de defesa comercial e falhas no apoio às empresas. Os processos de antidumping contra a China demoram mais do que em países que não a reconhecem como economia de mercado. Há pouco tempo, verificou-se que a China registrava exportações têxteis ao Brasil de cerca do dobro das importações brasileiras de têxteis chineses. Entram sem registro, para não pagar impostos. E competem com a produção brasileira, que paga. Os produtores brasileiros, tão ou mais eficientes que os chineses, sofrem com o câmbio e com a insuficiente defesa comercial.
FOLHA - O senhor disse que o Mercosul atrapalha a busca brasileira por novos mercados. O que propõe mudar no bloco?
SERRA - O Mercosul deve ser flexibilizado, para que não seja um obstáculo para políticas mais agressivas de acordos internacionais. Não se trata de acabar com o Mercosul, pelo contrário. Há duas instâncias de integração econômica. A primeira é a zona de livre comércio, a ser gradualmente implantada. A segunda, alcançada só depois de décadas pela União Europeia, é a política comercial comum - os integrantes renunciam à soberania comercial e fixam tarifas comuns de importações. Além disso, só podem fazer acordos com terceiros se todos concordarem. Sempre achei irrealista fazer tudo isso em quatro anos, a partir de 1995 [quando começou a vigorar a Tarifa Externa Comum]. Defendia que, primeiro, o Mercosul se fortalecesse como zona de livre comércio. Mas o livre comércio não se consolidou e a união alfandegária não se materializou totalmente. O Mercosul acabou sendo obra inconclusa.
FOLHA - A reação argentina a sua declaração não foi positiva.
SERRA - O que defendo é a flexibilização do bloco, a fim de que nos concentremos no livre comércio. Claro que isso não seria uma decisão unilateral do Brasil. Teria de ser bem negociada com nossos parceiros. ![]()
FOLHA - Mas, mesmo negociando sozinho com outros, o Brasil terá que fazer concessões.
SERRA - Como já disse, nos últimos oito anos houve cem tratados de livre comércio. O Brasil fez apenas um, assinado pelo Mercosul com Israel. É óbvio que o maior acesso a determinados mercados envolve concessões recíprocas. Sempre é assim. Por isso, cada caso é um caso, e só devemos assinar tratados que nos tragam vantagens líquidas. Outra questão importante é a da infraestrutura, que aumenta os custos de nossas exportações. O transporte da soja de Mato Grosso ao porto de Paranaguá [PR] custa algo parecido ao transporte desse porto até a China.