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Ultima modificação: 22/05/2012 às 06:08:17
"Lula faz populismo cambial e Mantega é seu puxa-saco" Luiz Carlos Mendonça de Barros

Em entrevista publicada nesta segunda-feira (14) pela Folha de S. Paulo, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros afirmou que país desperdiça a atual força das contas externas - que poderia financiar taxas de crescimento mais aceleradas - e criticou o gasto público. O tucano tachou o ministro Guido Mantega (Fazenda) de "um mão-mole" e de "puxa-saco do Lula". Chamou ainda o presidente de "oportunista" e o acusou de fazer "populismo cambial" ao desperdiçar a chance de permitir que o país cresça mais. Leia abaixo trechos da entrevista:

 

 

Populismo cambial

 

Se olharmos a melhoria de renda no Brasil hoje, 70% dela é devido ao câmbio, via o canal dos alimentos, que pesam 70%, 80% no consumo dos mais pobres. Em outras palavras: com o mesmo salário nominal e com o salário mínimo crescendo em termos reais, você teve um poder de compra 60% maior nos alimentos. É isso que mudou na renda. Não é o Bolsa-Família. É o Bolsa-Família com o câmbio. É claramente um populismo cambial.

 

 

Gastando poupança

 

É evidente que quem ganha até dois salários está vivendo muito melhor. Agora, como é que eu chego para esse sujeito e digo: "Olha, você precisa tomar cuidado porque o que nós estamos fazendo é gastando poupança, que podia estar sendo feita para melhorar a situação do seu filho e a sua situação mais à frente"? Isso não é dito. Nesse sentido, o populismo cambial do Lula é mais grave que o de Fernando Henrique, porque lá atrás era com dinheiro emprestado. Quem era contra sabia que era questão de tempo para acabar. Isso aqui não. Pode demorar. E esse tipo de doença pode fazer com que o Brasil perca a chance que o mundo está nos dando.

 

 

Desenvolvimento econômico

 

Eu só acredito que haja um processo de desenvolvimento econômico, de melhoria de distribuição de renda, quando ele é baseado em emprego, salário e mais educação. Não é isso o que estamos vendo, ao contrário. Se olharmos o emprego formal vemos que quem ganhava até dois salários mínimos eram 28% há alguns anos. Hoje, são 50%.

 

 

Reformas microeconômicas

 

O Brasil só tem um jeito de resolver o excesso de saldo comercial: crescer mais e fazer as importações crescerem por causa do crescimento... é preciso uma série de reformas, que não são mais reformas macroeconômicas, mas microeconômicas. Esse tipo de discussão, infelizmente, não existe.

 

 

Falsa maravilha

 

A impressão que passa, do próprio Lula, é de que está tudo uma maravilha. Não é verdade. Já estamos comendo nossa pele e isso vai aparecer. O primeiro momento em que isso vai aparecer será quando a previsão dos otimistas, de um PIB de 4% neste ano, não vingar. E não vai porque as importações aumentaram muito. Boa parte da produção interna já está sendo substituída por importações. Esse é um processo que, quando se instaura, não acaba mais.

 

 

Lula, o acomodado

 

O juro está errado por definição. Simplesmente por comparação. Temos um juro real de 10% e é muito difícil crescer assim. O juro é só o topo do iceberg. É um negócio tão desproporcional que chama a atenção. Mas o que vemos é o Lula acomodado. Ele é o maior defensor da taxa de câmbio valorizada. Pois é o maior beneficiário.

 

 

Engenheiro proletarizado

 

Talvez a história venha mostrar que a maior marca do Lula foi ter provocado uma maior divisão na sociedade. É uma divisão absolutamente irracional, que reflete um pouco a falta de coerência política do PT e do Lula. O banqueiro ganha e o sujeito do Bolsa-Família ganha. Ganha o rentista e o sujeito que ganha até dois salários. Mas e o sujeito que está trabalhando? Você pega o salário de um engenheiro recém-formado e vê que ele foi proletarizado. Por quê? Porque não tem demanda. É um momento muito angustiante.

 

 

O que é preciso mudar

 

Primeiro, é preciso tomar consciência que o lado externo mudou de uma forma estrutural e há mudanças a fazer na parte fiscal. Hoje, nós estamos tirando renda da parte eficiente da economia e dando para o governo para distribuir isso para o sujeito comer. Isso é muito bom do ponto de vista da distribuição de renda, mas do ponto de vista de uma economia de mercado é o pior caminho que você tem. Nós temos 39% do PIB de carga fiscal e ainda temos déficit no governo.

 

A equação para mim é muito clara: reconhecer que a parte externa me permite ser muito mais ousado em termos de crescimento econômico. Mas, para ousar mais, preciso restabelecer uma certa eficiência econômica, que começa pela redução da despesa do governo. Isso permitirá uma redução da carga tributária e dos juros maior do que o governo vem fazendo.

 

 

Governo que dá medo

 

Eles estão evoluindo na direção correta, mas muito lentamente. Eles estão com medo de avançar mais na redução dos juros e levar uma bola pelas costas na parte fiscal, que está um "samba do Crioulo Doido". Por isso é que a parte fiscal e a redução mais agressiva dos juros têm de andar juntas. A despesa hoje é uma conta aberta. É a cabeça desse pessoal. Você olha quem está no governo e dá medo. É gente que não sabe contabilidade, que não sabe onde debita e credita. o [Guido] Mantega, por exemplo, é um "mão-mole". O [Antonio] Palocci [ex-Fazenda] era um cara diferente, mas ele se foi.

 

 

BC é bastião de certa ortodoxia

 

Mantega é leniente. Tudo [para ele] é uma maravilha. Ele é um puxa-saco do presidente da República. Alguém no governo tem que ser o chato que era o Palocci. De falar: "Não dou, não deixo, não faço". Quem faz isso hoje? A Dilma [Rousseff, ministra da Casa Civil]? Aquele cara do Paraná lá [Paulo Bernardo, ministro do Planejamento], ex-bancário, caixa? Ele sempre pagou, nunca recebeu. Acho que isso é que inibe o Banco Central. Ele fica com medo de ir mais adiante na velocidade dos juros. O BC é hoje o bastião de uma certa ortodoxia do governo. E se eu me vejo como o último bastião de uma certa racionalidade, como é que eu vou dar sinais de que vou entrar na onda dos outros?

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