A oposição perdeu o tom diante da recuperação de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pelo menos o tom polido no debate político. Secretário-geral do PSDB, o deputado Eduardo Paes (RJ) diz que o petista voltou à liderança nas pesquisas devido a uma combinação de ?desfaçatez e cara-de-pau?. Para impedir que Lula continue no Palácio do Planalto em 2007, Paes promete desmascarar o adversário durante a campanha.
Hoje, a principal preocupação do deputado, no entanto, não é com as sondagens eleitorais, mas com a indefinição do candidato tucano à Presidência da República. Paes defende a escolha até 6 de março. Até porque, a disputa entre o governador Geraldo Alckmin e o prefeito José Serra já renderia desgastes e ameaçaria, inclusive, a unidade do partido.
? Talvez seja otimista demais, mas quero ser sincero. Não é desconforto ter que escolher entre o Ronaldinho e o Ronaldinho Gaúcho e, eventualmente, ainda contar com o Robinho ? afirma Paes.
Faz referência ao trio Alckmin, Serra e Aécio Neves, mas sem esclarecer quem veste cada camisa no ataque tucano. Eduardo Paes também aponta as armas do PSDB para conquistar o eleitorado: Entre elas, o ex- presidente Fernando Henrique, que ?sabe como ganhar da demagogia e da farsa que é o PT?.
O PSDB errou ao deixar para março a definição do candidato do partido à Presidência da República?
Desde a posse do Lula, o PSDB vem sendo cobrado para apresentar um nome. Nos últimos seis meses, então, quase batem na gente para indicarmos o candidato. Numa lista de cinco nomes do PSDB, os três primeiros ocupam funções executivas: Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves. Não tem como antecipar o processo. O que conseguimos adiar por um bom tempo acabou gerando certo desgaste na disputa interna.
Um pouco de salto alto com a queda de popularidade do presidente no ano passado contribuiu para a demora na definição?
Algumas pessoas podem ter se iludido com as pesquisas, achando que a fatura estava liquidada a favor do PSDB. O comando do partido não está assustado com a recuperação do Lula. Sempre achamos que ele era um candidato forte. É um sujeito que passa, como ele mesmo declarou, 365 dias do ano fazendo campanha. Muita demagogia, muito populismo, gera, sem dúvida, base social. Essa recuperação é sazonal. Em geral, no primeiro trimestre os presidentes estão sempre em situação melhor, sobretudo pela questão do emprego no fim e no início do ano. Não acho que ele esteja numa situação confortável.
O PSDB sairá rachado do processo de escolha do candidato?
Prefiro acreditar que não, apesar de algumas manifestações um pouco mais duras de ambos os lados.
Por que os caciques do PSDB preferem Serra?
Não sei se essa é uma decisão já tomada. Esse processo de discussão é fruto da falta de uma leitura clara de quem é o melhor quadro para disputar a eleição. Se temos candidatos competitivos, isso se dá pelo trabalho deles, mas também pela ação do partido, que colocou o Lula no seu devido lugar. Mostrou quem era o presidente e como é o governo do PT. Portanto, nenhum candidato pode se proclamar o rei da cocada preta, porque essa possibilidade de vitória tem muito a ver com a ação do partido, dos parlamentares e dos governadores.
Alckmin e Serra têm estilos diferentes. Qual dos dois se encaixa no modelo que o PSDB pretende apresentar ao eleitorado?
Será que são diferentes mesmo? Quem é o mais agressivo? No momento, o Geraldo está muito mais firme. E o Serra, supostamente mais agressivo, está mais light.
Os ditos mercados emitem sinais de certa apreensão em relação a Serra. Teriam preferência por Alckmin...
Estabeleceu-se o consenso de que o Geraldo tem apoio do empresariado e do setor financeiro. Quando o Serra apregoou uma lei de responsabilidade cambial, tentou mostrar a necessidade de aumentar o câmbio, desvalorizar o real. Isso agrada muito mais ao setor empresarial do que ao setor financeiro.
O senhor defenderá o nome de quem?
Tenho ligação muito forte com Serra, mas sou favorável à candidatura que nos dê maiores possibilidades de vitória. Para sair, o Serra precisa da unidade do partido. No caso do Geraldo, temos hoje uma situação de partida mais difícil, mas ele tem um potencial de crescimento enorme.
Não é anti-democrático deixar na mão de poucos líderes a definição do candidato?
Não está nas mãos de poucos. Você tem três líderes absolutamente representativos. Aécio é governador de Minas, Tasso é o presidente do partido. Fernando Henrique está acima de todos nós pelo fato de ter sido presidente da República e já ter ganho duas eleições do presidente Lula.
Parlamentares do PSDB dizem que as críticas de FH ao PT contribuíram para a recuperação de popularidade de Lula...
Estou falando do processo decisório. A participação do presidente Fernando Henrique, com sua experiência e seu histórico de vitórias sobre o Lula, é fundamental. Outra coisa é o processo político. Neste momento, ele colabora com o partido na construção política. Isso demonstra coragem e ousadia, porque ele não precisava, podia estar navegando com tranqüilidade e vendo a tragédia que é o governo Lula.
As pesquisas não têm sido justas com o ex-presidente?
Fernando Henrique não é candidato e nunca pretendeu ser.
O prefeito José Serra, pelo menos oficialmente, também não é candidato...
Mas é um nome à disposição do partido. Não podemos dizer que o Fernando Henrique é um político aposentado, mas ele já cumpriu dois mandatos de presidente da República. O Serra é um político na ativa, está tapando buraco em São Paulo, podando árvore, participando do debate. Não é um candidato lançado, mas é um nome com o qual o partido conta.
A saída de Serra da prefeitura de São Paulo não pode resultar em prejuízo político para o PSDB caso ele perca a eleição?
Não tenho dúvida. E o Serra não esconde isso. São Paulo é muito importante para qualquer partido. Mas, se ficar muito claro que o Brasil deseja o prefeito Serra, que o partido precisa do passe dele, a população de São Paulo saberá compreender.
O PSDB vive momento de desconforto?
Talvez seja otimismo demais dizer que não é desconforto ter que escolher entre o Ronaldinho e o Ronaldinho Gaúcho e, eventualmente, contar com o Robinho. Desconforto é ter candidato ruim disputando prévia e um presidente envolvido numa rede de corrupção montada com seus amigos. Não há hipótese de a incompetência, os números pífios do governo, a rede de corrupção, passarem incólume na campanha. Isso é que dá desconforto.
Cientistas políticos e parlamentares afirmam que o PSDB também tem telhado de vidro...
Não existe na história do Brasil um governo honesto por completo. O governo FH teve problemas de corrupção. Imagina o que Delúbio Soares não teria aprontado com todas as teles na mão.
Apesar de o senhor considerar pífios os números do governo, o PT aposta na comparação com a gestão anterior...
Temos de mostrar como o presidente Fernando Henrique pegou e como deixou o Brasil. Depois, é importante dizer que os números de 2002 dizem respeito à tragédia pela perspectiva de um grupo de demagogos que assumiu o poder. Mostraremos também que parte das promessas não foi cumprida.
Como o presidente Lula conseguiu reassumir a ponta nas pesquisas?
Desfaçatez, cara-de-pau e falta de vergonha na cara. A CPI dos Correios já provou que os recursos do mensalão vieram do Banco do Brasil-Visanet e eles continuam negando. É óbvio que você tem uma parcela da população que está menos atenta e jogou muita esperança no presidente. Por isso, ainda cai nessa conversinha do PT. Os números da pesquisa são muito ruins para o presidente da República. O nível de rejeição é altíssimo. As pessoas mais informadas estão majoritariamente com o PSDB.
O presidente também cresceu nos segmentos mais escolarizados...
Estamos num processo interno de discussão que de fato não é bom. Mas não tenho dúvida de que na campanha eleitoral esclareceremos bem a população e o PSDB fará o próximo presidente.