Jereissati ? Não foi uma estratégia eleitoral. O que ocorre é que não compartilhamos da idéia de quanto pior melhor. Não achamos adequado dividir o país em uma luta em que a nação seria esgarçada ao limite. Não levaríamos a crise a um ponto em que não haveria possibilidade de manutenção do governo.
Veja ? O senhor se refere ao impeachment do presidente?
Jereissati ? Sim, porque o fato é que existem forças que apóiam o presidente Lula. Essas forças iriam resistir à idéia e nós teríamos uma espécie de Venezuela do Chávez.
Veja ? O senhor está dizendo, então, que a tibieza do PSDB na crise se deve unicamente a um senso de responsabilidade que não inclui nenhum cálculo eleitoral?
Jereissati ? Eu vou falar com toda a franqueza para que não se tenha esse entendimento de que houve omissão da nossa parte ? ou acordão ou acordinho. Nós vamos levar às últimas conseqüências os erros cometidos por esse governo. As CPIs estão começando a chegar a conclusões. E essas conclusões têm se mostrado muito contundentes. Houve roubo no Banco do Brasil, por exemplo ? isso agora se sabe. Outras conclusões tão graves como essa se aproximam. E, a partir daí, os instrumentos jurídicos darão seqüência ao trabalho das CPIs. Mas, do ponto de vista político, é preciso que haja um amadurecimento político para discutir a questão do impeachment, independentemente da questão jurídica.
Veja ? Traduzindo?
Jereissati ? Traduzindo, significa que é preciso que a população brasileira esteja, em sua grande maioria, querendo o impeachment. Nós não podemos querer o impeachment do presidente sem que a grande maioria da população esteja convencida, como esteve no caso Collor, de que está na hora de o presidente da República, eleito por ela, ser impedido.
Veja ? Isso está longe de acontecer, na sua opinião?
Jereissati ? Não está claro que exista esse clima no Brasil. E tomar essa iniciativa sem que haja esse clima é uma irresponsabilidade.
Veja ? Faltou falar sobre a hipótese de que o PSDB teria evitado uma postura mais agressiva diante da crise por causa do envolvimento do seu ex-presidente Eduardo Azeredo com o valerioduto.
Jereissati ? Eu não concordo porque esse, sim, é um problema de caixa dois. Que é sério e precisa ser investigado, mas que não é um problema com a dimensão daquele que atingiu o PT. O problema do PT é de corrupção e de desvio de dinheiro público ? o maior já feito no Brasil de forma sistemática. E que funcionava a partir da mais alta cúpula do governo: a Casa Civil. É diferente de caixa dois.
Veja ? Que não deixa de ser um crime, como o senhor mesmo afirma. Ainda assim, o senhor foi um dos maiores defensores da permanência de Azeredo no comando do partido.
Jereissati ? Eu não defendi a permanência dele. Apenas coloquei que o Eduardo Azeredo deveria decidir de acordo com sua consciência. Depois, nesse caso, o crime ? eleitoral, é bom frisar ? ocorreu quando ele foi candidato ao governo de Minas, antes de assumir a presidência do partido. Não houve, portanto, um comprometimento do PSDB nacional.
Veja ? O seu irmão vem sendo acusado de ter relações mais próximas do que o desejável com o governo. Como o senhor vê isso?
Jereissati ? Tenho dois irmãos e eles são maiores de idade.
Veja ? Eu me refiro ao seu irmão Carlos Jereissati.
Jereissati ? Acho que ele mesmo tem condições de responder às acusações e assumir a responsabilidade sobre o que fez ou deixou de fazer.
Veja ? Mas o senhor considera as acusações injustas?
Jereissati ? Eu não conheço as atividades dele. Em relação à campanha (presidencial), por exemplo, não sei quem ajudou ou deixou de ajudar. Tenho com meu irmão uma relação pessoal, cordial. Mas ele tem as suas idéias, as suas atividades, e eu não tenho nada a ver com isso.
Veja ? O caso Telemar (concessionária do governo que injetou 5 milhões de reais numa empresa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula) nunca foi investigado pelas CPIs. O fato de seu irmão ser um dos controladores da empresa teria algo a ver com isso?
Jereissati ? Eu não tenho esse controle todo sobre as CPIs. Mas sempre defendi, a não ser que haja um favorecimento muito evidente, que é preciso resguardar a intimidade familiar.
Veja ? O senhor não acha que, no caso da Telemar, houve um evidente favorecimento a Lulinha?
Jereissati ? Acho que não é tão claro. Se vier a ficar claro, penso que é inevitável uma investigação.
Veja ? Como poderia ficar mais claro? Trata-se de uma concessionária do governo, que tem parte de seu capital formado por dinheiro público, e que injetou essa quantidade de reais na empresa do filho do presidente.
Jereissati ? Acho que poderia ficar mais claro se, por exemplo, uma auditoria provasse que o valor é muito acima do razoável, que o investimento não vale a pena...
Veja ? Mas, se a CPI não está investigando...
Jereissati ? Não sou eu que estou impedindo que a CPI investigue. Eu não tenho de me defender disso. Aliás, sou membro apenas da CPI dos Bingos.
Veja ? O que o senhor achou da entrevista do presidente Lula ao programa Roda Viva?
Jereissati ? Eu esperava que ele falasse com franqueza à nação. E o que percebi foi uma fala treinada ? treinada por um advogado competente. A preocupação do presidente foi apenas evitar incriminar a Presidência da República. Em nenhum momento ele foi franco ? o que inclui a afirmação de que não sabe se vai se candidatar. Lula já está claramente em campanha. Não faz outra coisa e não pensa em outra coisa.
Veja ? Quais serão as próximas etapas da crise, na sua opinião?
Jereissati ? Ela tende a se aprofundar, diante das conclusões a que as CPIs estão chegando. Tudo indica que teremos revelações graves e contundentes nos próximos dias. Até agora, no entanto, ao menos um aspecto positivo resultou dela. O estouro da crise mostrou que a cultura bolchevique e totalitária do PT estava arraigada no governo e que alguns de seus integrantes de fato acreditam e praticam a idéia de que os fins justificam os meios, de que é preciso destruir o inimigo a qualquer custo e aparelhar o Estado. As digitais desse totalitarismo estão presentes em muitas das ações do governo. Se a crise não tivesse estourado, do ponto de vista da eficiência, o Estado estaria destruído e, do ponto de vista do aparelhamento, estaria completamente tomado.
Veja ? O senhor sempre defendeu a política econômica do ministro Antonio Palocci, que hoje está no centro da crise, sofre o bombardeio da ministra Dilma Rousseff e ameaça sair. Qual seria o impacto de sua eventual queda?
Jereissati ? Para o governo, seria o fim. O governo Lula só resiste por causa da economia. Basta olhar o discurso do Lula e dos outros ministros ? tudo o que eles argumentam está baseado na economia. E o fiador da economia hoje não é o Lula, é o Palocci. Sua saída significaria a queda do único pilar que está sustentando o governo.
Veja ? O secretário executivo da Fazenda, Murilo Portugal, é sempre lembrado como um nome que poderia substituir o ministro Palocci sem grandes traumas para a economia.
Jereissati ? O Murilo Portugal, numa briga com a Dilma, não sobreviveria cinco minutos. Ele não tem a intimidade nem a confiança do Lula, muito menos a do PT. Não conseguiria nunca impor esse tipo de política. E eu acho que o Lula nem gosta dele.
Veja ? O senhor tem proximidade com o governador Aécio Neves, que está, ao que tudo indica, fora do páreo na disputa interna do PSDB pela candidatura à Presidência, polarizada por Geraldo Alckmin e José Serra. Acha que ele absorveu essa situação?
Jereissati ? Estou mais próximo do Aécio do que nunca. O que ocorre é que o Aécio tem sinalizado que está mais concentrado em outro projeto político; não parece interessado na Presidência da República agora. Mas, no momento em que sinalizar que é candidatável, evidentemente que ele se coloca no páreo novamente.
Veja ? A sua candidatura está descartada?
Jereissati ? Totalmente descartada.
Veja ? A campanha de 2006 promete ser uma das mais belicosas dos últimos tempos. Nesse contexto, o candidato do PSDB deveria ter quais características, na sua opinião? Ser mais aguerrido, assertivo, agressivo ou justamente o contrário?
Jereissati ? Justamente o contrário. O que o país espera é alguém que tenha condições de conciliar a sociedade e apresentar um projeto para o país. Então, o que se exige não é um candidato aguerrido ou carismático. Dessa coisa de carisma já estamos cansados.
Veja ? O senhor diz que não é supersticioso, mas afirma não assinar documentos no dia 13, não gostar de ficar perto de pessoas vestidas de marrom e ter uma relação especial com Juazeiro do Norte, que acredita lhe dar sorte.
Jereissati ? É verdade.
Veja ? Em 1994, o senhor levou a Juazeiro Fernando Henrique Cardoso, então candidato do PSDB à Presidência da República. Neste ano, o senhor levou o governador Geraldo Alckmin. Por que não levou o prefeito José Serra?
Jereissati ? Ah, mas eu também vou levar o Serra. Vou levar assim que ele quiser. Quem sabe no ano que vem. E vou levar o Aécio.