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Ultima modificação: 22/05/2012 às 06:15:42
"O Brasil vive um retrocesso do ponto de vista ético" Geraldo Alckmin

O ex-governador de São Paulo e candidato em 2006 a presidente pelo PSDB, Geraldo Alckmin, não acredita em perfeição no mundo em que vivemos. "Olavo Bilac dizia que há no interior de cada homem e cada mulher um demônio que ruge e um Deus que chora", cita. Mas a imperfeição humana não justifica, segundo ele, o retrocesso do ponto de vista ético por que passa o Brasil no governo Lula. "Nos outros países há corrupção na política seguida de punição. Aqui temos corrupção e impunidade", sentencia.

 

Brasil perde oportunidades

 

O tucano acredita que o apagão aéreo também já foi longe demais. "Deixamos de ter um governo a serviço dos cidadãos", resume Alckmin. Ele acusa a administração Lula de estar parada e, assim, fechada para as janelas de oportunidades escancaradas pelo crescimento global. "A hora que passar esse bom cenário internacional, o Brasil irá se arrepender de não ter aproveitado a oportunidade histórica."

 

Alckmin concedeu entrevista exclusiva à Agência Tucana na manhã desta segunda-feira, antes de participar do seminário do PSDB sobre segurança pública em Porto Alegre (RS). Abaixo a íntegra da entrevista:

 

 

Hoje o PSDB completa 19 anos. Como o senhor vê o partido no cenário político brasileiro?

 

O PSDB nasceu em 1988, logo após a Assembléia Nacional Constituinte. Fui a sétima assinatura [na ata de fundação do partido]. Durante uma reunião ontem com a juventude do PSDB, percebi que o partido tem tudo a ver com o movimento feito pelos jovens. A legenda foi fundada para uma renovação dos costumes políticos brasileiros. Hoje, mais do que nunca, essa renovação é necessária diante de tantos escândalos e tanta desilusão na política.

 

 

Qual a marca dos tucanos?

 

Somos o partido da modernidade, que mudou o Brasil de patamar com a estabilidade da moeda, a criação de uma rede de proteção social e com os bons governos como o do Mário Covas.

 

 

Como era Mário Covas na intimidade?

 

Ele tinha um grande coração e não resta dúvida de que era um homem generoso. Quando perguntavam a ele quais eram as condições para se fazer política no país, a resposta era "caráter e apreço à democracia". Vejo que Covas estava absolutamente certo sobre isso. Política se faz com princípios. Isso significa gostar de gente, trabalhar junto com o povo, melhorar a vida das pessoas.

 

 

Quais são os principais desafios da Social Democracia?

 

A social democracia representa o apreço aos princípios democráticos, o compromisso com o social, especialmente com o desenvolvimento sustentável, empregos, melhores salários, melhor qualidade de vida para o povo. Representa ainda eficiência na gestão pública.

 

 

Avalie o Brasil de hoje...

 

O setor privado do Brasil fez a lição de casa e conseguiu obter enorme eficiência e competitividade. O governo, no entanto, não faz a sua parte, fato que obriga a sociedade a carregar um peso grande demais. Carga tributária alta, modelo previdenciário bastante injusto, reformas estruturantes que não acontecem: um quadro político muito desalentador.

 

 

Nessa perspectiva, onde o PSDB se encaixa?

 

O PSDB é um instrumento do povo ideal para mudar esse tipo de coisa. Nossa missão será trazer velocidade na gestão. O desafio do PSDB é promover as reforma que o país precisa para crescer com mais emprego.

 

 

O partido vem cumprindo seu papel histórico?

 

O PSDB tem uma folha de serviços prestados ao Brasil. Na oposição, quando foi fundado, no governo José Sarney, a legenda já defendia a distância entre ideais partidários e benesses do poder. A legenda nasceu próxima ao pulsar das ruas, como afirmava o primeiro manifesto do partido. Na oposição a Sarney, o partido cumpriu seu papel. Assumimos depois o governo pelo voto popular, no período do presidente Fernando Henrique Cardoso. Os frutos que estamos colhendo agora foram plantados lá atrás.

 

 

E hoje, como está o partido na oposição?

 

Entendo que o PSDB na oposição está trabalhando duro e vem incorporando uma luta política importante. Uma oposição firme é boa para o Brasil e para o próprio governo, que não tem tempo para se acomodar. Isso proporciona equilíbrio. Precisamos, por exemplo, lembrar a população que o PT votou contra o Plano Real, o Fundef e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

 

 

Já dá para avaliar o segundo mandato do presidente Lula?

 

Ainda é cedo para qualquer avaliação. No entanto, já começamos a perceber que embora Lula tenha ganhado um novo mandato, o Brasil não ganhou novo governo. A administração federal está parada. Seis meses depois de ser reconduzido ao Planalto, ele [Lula] nomeia o 37º ministro. Se o ano acabar sem que o governo tenha feito as reformas estruturantes, dificilmente elas serão feitas nos próximos três anos. A tarefa da oposição é cobrar.

 

 

Qual será o seu futuro político?

 

Pretendo me dedicar à medicina, ao magistério na universidade e ao PSDB, ajudando como militante. Vou percorrer o país para ajudar a organizar o partido. Temos que estar preparados para as eleições municipais de 2008, pois elas são fundamentais para o povo brasileiro. São os governos locais, as prefeituras, que atuam mais perto da população. É muito importante o PSDB ter bons candidatos.

 

 

O PSDB deve se preparar para 2008 de olho em 2010, não?

 

A eleição de 2010 ainda está muito longe. O essencial é que o partido tem bons candidatos. Vamos agora estabelecer o critério mais participativo possível para escolher o candidato a presidente. O escolhido terá, assim, enorme legitimidade e deverá manter o partido unido para melhorar a saúde e a segurança pública, que hoje sofrem com o descaso do presidente Lula.

 

 

O apagão aéreo já não foi longe demais?

 

Foi. Quando houve algo semelhante nos Estados Unidos no governo Ronald Reagan a confusão durou 24 horas. Não é possível que o governo não tenha competência para fazer funcionar os serviços públicos. Deixamos de ter um governo a serviço dos cidadãos.

 

 

Apesar da crise, Lula continua forte nas pesquisas?

 

Após seis meses, observamos que o governo está colhendo os louros da estabilidade. O Brasil aprendeu a controlar a inflação e o cenário internacional é bastante positivo. Mas, numa avaliação além das aparências, vemos que as questões que dependem do governo ainda não aconteceram: a reforma tributária não saiu do papel, nem a fiscal, a tributária ou a política. Nada andou.

 

 

O país está perdendo oportunidades?

 

A hora que passar esse bom cenário internacional, o Brasil irá se arrepender de não ter aproveitado a oportunidade histórica. Estamos diante de um descalabro e um retrocesso sob o ponto de vista ético. Sabemos que corrupção tem no mundo inteiro. Mas não é disso que se trata. Olavo Bilac dizia que há no interior de cada homem e cada mulher um demônio que ruge e um Deus que chora. Ou seja, o ser humano não é perfeito. A diferença, porém, é que nos outros países há corrupção na política seguida de punição. Aqui temos corrupção e impunidade. E isso é péssimo. Não podemos nos conformar com essa situação.

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