O problema fundamental do partido hoje é a divisão que permanece em São Paulo
entre as candidaturas Kassab e Alckmin?
Sérgio Guerra: a posição do José Henrique Lobo ( presidente do Diretório Municipal ) de recomendar que não cabe assinaturas contra a candidatura Alckmin é uma vacina para evitar isso. O Lobo tem o mérito de conversar com o governador José Serra e ser amigo do Geraldo.
O grande papel dele foi ser contemporizador para tentar aliança?
SG: tentar a aliança no limite e, depois, defender Geraldo como está defendendo.
Há um risco de racha oficial do PSDB, em São Paulo, na convenção oficial?
SG: há risco de uma disputa entre duas tendências. Uma que defende a candidatura de Geraldo Alckmin. Outra que defende uma aliança com o DEM. Eu acho que esse risco deve ser evitado.
A corrente que defende a aliança com o DEM é majoritária em São Paulo?
SG: eu acho que não, mas alguns acham que sim. Primeiro, vamos falar sobre esta questão de São Paulo. Desde o começo foram confirmadas duas candidaturas: a do Geraldo, pelo PSDB, e a do prefeito Kassab, pelo DEM. Em nenhum momento, um ou outro admitiu deixar de ser candidato.
Até que ponto o governador não poderia ter ajudado para evitar essa divisão?
SG: eu acho que ele não tinha como resolver. Porque ele governa com uma aliança que é bem sucedida na prefeitura e no governo do Estado.
O governador não poderia, com a autoridade política que tem, dizer ia ficar com a
aliança, fazer a opção pela aliança?
SG: não, porque a questão foi colocada da seguinte maneira: o Kassab é um prefeito que continuou o governo do Serra e deseja a reeleição. O Geraldo não cogitou outra alternativa, a não ser a de ser candidato a prefeito. Essa idéia de candidato a prefeito ele já tem há muito tempo.
O lançamento de qualquer candidatura, independentemente de ser Geraldo ou não, não é jogar contra si mesmo em São Paulo, uma vez que o PSDB participa da
administração Kassab?
SG: a dificuldade deste processo é que, realmente, o PSDB participa e governa com o
Kassab. Eu sempre trabalhei com a hipótese dos dois se entenderem. Até porque há muitas maneiras desses entendimentos se desenvolverem: eleição de prefeito, eleição de governador, eleição de senador. O entendimento com o DEM é algo que a gente tem cultivado não apenas em São Paulo, mas
O sr. vê algum risco de um dos dois candidatos não chegar ao 2º turno?
SG: Nenhum risco.
Agora, esta não é uma campanha para ser ganha no 1º turno, se houvesse unidade?
SG: sem dúvida. É uma campanha em que a gente teria boas chances de ganhar no 1º turno. É uma campanha que poderá ser perdida, se nós não confluirmos para uma discussão construtiva no 1º turno. Se não tivermos um padrão de campanha que colabore na união das forças que, estão em torno de um e de outro, na eleição do 2º turno e dos eleitores.
O Alckmin está fazendo já um discurso de campanha com críticas à administração do Kassab. Isto não é ruim para o PSDB?
SG: há críticas e críticas. Há comentários e comentários. É evidente que um candidato vai ter uma idéia e o outro vai ter outra.
Criticar a administração Kassab, onde se executa parte de um projeto do PSDB, não é de alguma forma uma autocrítica?
SG: críticas ao governo Kassab devem ser compreendidas desde que contidas numa
proposta para um novo governo. Eu acho que aqui ( para esse determinado problema ), as coisas podem ficar de outra forma, podem melhorar. Esta é uma conduta que pode ser entendida, sem problema nenhum.
Tem que haver um contexto de um projeto novo?
SG: tem que haver um projeto novo e uma idéia nova. O PSDB acredita num projeto novo. Eu acredito que ele tenha. Não faz o menor sentido o Geraldo ser candidato a prefeito se não tiver este projeto para a cidade. A candidatura dele, por mais popular que de fato seja, só terá consistência e será vitoriosa na medida em que estiver sustentada por um projeto. Nós desejamos que ele apresente este projeto e vamos colaborar com isso.
Como o PSDB vai compatibilizar a posição do governador com esta escolha?
SG: a nossa primeira orientação é fortalecer a unidade, não apenas em São Paulo, mas em todos os lugares. O desempenho do Diretório Municipal de São Paulo e do seu presidente é excelente. Ele fez um esforço no limite pela unidade, e está fazendo um esforço no limite para a confirmação do nome do candidato do PSDB. Esta posição é a que temos de apoiar. Ela é simétrica com a Executiva Estadual e o presidente Mendes Thame tem uma posição bastante equilibrada neste assunto. A nossa diretriz é aprovar o encaminhamento que o José Henrique Lobo está dando ao processo. Estamos confiantes nesse encaminhamento, porque não desejamos nacionalizar essa disputa. O que não vai ferir a unidade do PSDB no geral, mas a exportação deste problema local para a instância nacional significa exportar esta disputa estadual para o cenário nacional.
O governador Aécio Neves (MG) andou apoiando o Alckmin...
SG: muita gente do partido e não apenas o Aécio aprova o nosso encaminhamento e deseja a candidatura de Geraldo Alckmin. É absurdamente falsa a informação que ele interferiu na questão local. Nós temos conversado sobre isso o tempo todo e isso não é verdade.
Não tem ninguém conspirando em São Paulo?
SG: não há conspiração
O sr. admite a hipótese de que a questão realmente seja disputada no voto?
SG: eu trabalho com a hipótese de que a ação do Diretório Municipal vai dar certo e que a disputa não vá para o voto na convenção.
Este é o problema mais grave do PSDB hoje?
SG: é, pelo menos, o mais divulgado. Isto tem a ver com a importância de São Paulo, com a importância da imprensa de São Paulo. O fato é que São Paulo é o alicerce mais poderoso do PSDB. Em São Paulo estão algumas das nossas principais lideranças nacionais e alguns milhões de votos que PSDB tem orientado.
Em São Paulo tem uma discussão para fazer uma parceria com o DEM, em Minas
para consolidar uma parceria com o PT. Isso não confunde a cabeça do eleitor no
ponto de vista nacional?
SG: vamos por etapas: primeiro, o PSDB e o DEM. Setores do DEM algumas vezes
reclamam da falta de aliança e sustentação do PSDB. Esta reclamação não cabe mais. Acabamos, por exemplo, de concluir negociações que nos levam a apoiar uma candidata do DEM para a prefeitura de Belém, no Pará. Acabamos de ajustar a nossa posição em Santa Catarina com o presidente Jorge Bornhausen. Há chance de nos entendermos nas eleições municipais de Porto Alegre. Eu tenho conversado diariamente com o presidente Rodrigo Maia em torno dessas e de outras questões.
Efetivamente, o DEM vai ser o parceiro preferencial do PSDB?
SG: não vai ser não, ele é. Agora, questão de aliança: o PSDB não é um partido sectário. Sectário é o PT.
O PT tem uma orientação nacional?
SG: não obstruímos coligações, a não ser coligações que comprometam a ética e a boa política. Apoiamos um candidato do PV do Rio de Janeiro. Estamos coligados com o PPS
O que significa ser democrata pela metade?
SG: ser mais ou menos ideológico, se associar para receber apoio e não fazer controle de qualidade. O mensalão está aí para comprovar.
No bastidor da disputa paulista pode ter uma disputa nacional que são as
candidaturas Aécio e Serra em 2010?
SG: não há disputa de Serra e Aécio
O sr acha que vai ser possível evitar as prévias para escolher o candidato de 2010?
SG: ninguém está cogitando de evitar as prévias. Nós vamos estruturar as prévias.
Como que se estrutura uma prévia para garantir que o lado perdedor efetivamente
apóie e trabalhe...
SG: nós não teremos prévias se os candidatos se entenderem. Não haverá necessidade de prévias. O recurso das prévias, do ponto de vista da candidatura para Presidente da República, pode ser necessário. Mas, nós não vamos inaugurar nada. Primárias ou prévias já acontecem em outros lugares.
Há muita reação à hegemonia paulista. Isto pode interferir na condução das prévias?
SG: eu acho que a questão da hegemonia paulista é uma falsa questão. Há uma demanda no PSDB, não é contra São Paulo, mas a favor de mais discussão interna.
Quando se reclama por mais democracia interna há muita queixa pela concentração de poder em São Paulo...
SG: as lideranças que pautaram o partido nos últimos anos não foram, absolutamente, apenas paulistas. Foram paulistas também, mas foram mineiras, cearenses. Pimenta da Veiga, um mineiro, foi presidente. Aécio é mineiro. Tasso Jereissati sempre teve um papel relevante. Eu sou pernambucano. Então, não é bem assim.
Esse processo de democracia interna já está em construção?
SG: o fato de eu ser presidente é conseqüência disso. Eu não fui para presidente porque um grupo quis que eu fosse. Porque São Paulo desejou que eu fosse ou porque Minas desejou que eu fosse. Entenderam que é preciso ajudar o partido a caminhar junto nacionalmente.
O PSDB tem três candidatos em 2010...
SG: o PSDB tem três nomes colocados com perfis diferentes. O governador de Minas
Gerais com uma tradição de liderança política, de negociação. Com a força da unidade dos mineiros e que ele cultiva. E o partido acha muito bom que ele faça assim. Segundo, o governador de São Paulo que foi um grande ministro da Saúde. Marcou seu nome de forma incisiva no eleitorado brasileiro e que é reconhecido como um quadro executivo de excepcional qualidade. E um quadro parlamentar, diferente dos dois, de liderança parlamentar óbvia que é o senador Arthur Virgílio. E tem tudo para alimentar uma discussão de qualidade para o PSDB, de sustentar uma discussão de qualidade dentro do partido.
Na sua avaliação, qual é o perfil ideal de candidatura para vencer em 2010?
SG: o PSDB tem que mostrar ao Brasil o que é capaz de fazer, além de tudo o que já foi feito. Produzir um novo quadro de referência para o País e mobilizar a sociedade com novas idéias.
É um pouco do desafio que Geraldo Alckmin tem agora? Vai ser o desafio do PSDB em 2010?
SG: discussões políticas para campanhas municipais não têm amplitude de campanhas nacionais. As propostas municipais têm que ser mais objetivas, mais concretas. O desafio que o Geraldo tem é de mostrar em São Paulo o que ele espera construir. Já nós, da Executiva Nacional, temos que mostrar para os brasileiros que somos capazes de fazer mais do que já foi feito. E há muito para fazer. O discurso moralista, antagônico, simplesmente antagônico, não tem chance de prosperar.
Não pode ser um discurso envergonhado, porque em 2006 o PSDB ficou com
vergonha de defender as privatizações na disputa presidencial passada...
SG: a orientação desde o Congresso de novembro é ter clareza nesta questão do passado. Não se trata de reduzir o tamanho do presidente Lula, mas de mostrar que tudo começou a partir do Plano Real. Não há o que esconder, só o que afirmar. Essa discussão da ética, de bater no governo, com CPI para lá, CPI para cá, envelheceu.
Essas CPI's do governo Lula não desmoralizaram a faculdade investigativa do
Congresso? De alguma forma não colocaram a discussão da corrupção em segundo plano porque efetivamente nada se resolveu?
SG: o Congresso não tem se demonstrado eficiente na organização da investigação. A
gente precisa ter planejamento. Temos que saber o que queremos investigar, com se vai dar esta investigação, quais os elementos de organização e métodos que nós temos para chegar a conclusões concretas. Na CPMI dos Cartões Corporativos o governo era dono de todas as informações. Ele criou uma barreira artificial, falsa, entre o que podia ser mostrado e o que não podia, sob o argumento absurdamente precário do sigilo e da segurança das informações. Com isso, o governo deixou a investigação capenga. Além de ter feito uma ação parlamentar direta, objetiva para impedir a investigação.
E esta nova denúncia contra a ministra Dilma Rousseff no caso da venda da Varig?
SG: é grave. Não pode deixar de ser grave. Nós temos que nos organizarmos, nos debruçarmos sobre os fatos e ter competência para ir atrás desses fatos com os obstáculos que o governo cria a toda hora.
Nas vésperas do início da campanha, ela acaba caindo no vazio?
SG: ela não foi uma denúncia anônima. É uma denúncia do próprio governo sobre ele
mesmo. Aliás, todas as denúncias que até agora surgiram tiveram origem, forma e conteúdo dentro do governo e de seus aliados, que produziram essas sucessivas crises. A gente tem que desempenhar nosso papel fiscalizador no interesse da democracia. É claro que a visão que a sociedade está tendo dos políticos é negativa. E essa visão tem que ser reconstruída num bom padrão. Palavras não resolvem isso, ação sim. Nós do PSDB não vamos deixar de investigar algo que mereça ser investigado. Valeu, por exemplo, a atitude do presidente Fernando Henrique no episódio dos cartões corporativos: investiguem o que quiserem.
Vou voltar numa questão anterior da relação com o DEM e de locais onde o PSDB
está apoiando candidatos do DEM. E a reciprocidade nesta relação? Onde é que os
Democratas está apoiando o PSDB?
SG: No Rio Grande do Sul eu tenho falado diariamente com o presidente do DEM. O DEM estadual não pode, não deve atuar contra a governadora do Estado. A governadora fez um trabalho de reforma econômica de excepcional qualidade, com muita coragem e precisa de sustentação política. Ninguém contraria interesses como ela tem contrariado lá, sem pagar preços políticos elevados. É necessário que todos compartilhem desta posição.
Qual é a aposta do PSDB em 2010? O partido acha que vai enfrentar mesmo a
candidata Dilma Roussef?
SG: eu, pessoalmente, estou convencido disto. Eu acho que a ministra Dilma tem liderança neste ambiente desorganizado do governo e que o presidente Lula deve entender que ela é a continuação do que ele faz. Não vejo nenhum outro nome no PT que pudesse se confirmar para candidato. Eu acho que a ministra Dilma tem dificuldades muito fortes de ir para uma campanha. Até mesmo a sua personalidade, que não é muito democrática. Ela não tem a cara da democracia. Ela ficou arranhada por esse episódio recente do dossiê e não vai descolar disso porque, de fato, ela estava envolvida. Mas, ela não é uma candidata que deva ser subestimada.
Mesmo sem ter tradição política, qualquer candidato que tenha o apoio formal e
ofensivo do presidente Lula tem chance?
SG: eu não acho a ministra Dilma qualquer candidata. Acho que é uma candidata real. Mas, o presidente Lula não é mágico. Ele tem que tomar cuidado com a economia que não vai do jeito que ele imaginava que estava. Não vou torcer pelo pior, nem vou desejar que a economia se atrapalhe, nem colaborar com isso, mas que as coisas estão se complicando, estão.
Depois do dossiê veio esta denúncia de tráfico de influência na operação de venda da Varig. O sr. acha que isso pode comprometer a imagem da candidata Dilma?
SG: a denúncia é grave, mas toda a denúncia deve ser vista de maneira completa, clara e de forma tranqüila.
Esta ofensiva dos tucanos de São Paulo para impedir a CPI da ALSTON. Isso não
coloca o PSDB na mesma posição do PT nacional que fica dificultando a CPI?
SG: eu acho que denúncias devem ser apresentadas integralmente. E, tendo conteúdo, devem ser investigadas. E a investigação não deve excluir CPIs. No caso da ALSTON, o que estamos irritados é com a sucessão de vazamentos. É uma cadeia de vazamentos. No caso das prestações de contas dos partidos, também houve vazamentos. Eu fui ao Secretário da Receita Federal e pedi para que a investigação continuasse, mas vazamentos se confirmaram apenas contra nós. Depois, começa uma CPI sobre cartões corporativos com foco nas despesas do governo do presidente Lula. O que vazou foram despesas do governo Fernando Henrique. E o cara-de-pau do relator fica falando dessas despesas e de exministros do presidente Fernando Henrique. As despesas corporativas do presidente Lula ficaram protegidas. O conteúdo, forma e extensão ninguém sabe até hoje. Agora outros vazamentos. Nós não queremos saber de vazamentos. A nós não interessam vazamentos, interessam os fatos.