O deputado Bruno Araújo (PE) está em seu primeiro mandato na Câmara, mas já foi escolhido pelo novo líder tucano, deputado José Aníbal (SP), para ocupar a primeira vice-liderança do PSDB na Casa. Filiado ao partido desde 1995, esse advogado de 35 anos foi duas vezes eleito deputado estadual em Pernambuco. Em entrevista exclusiva, ele falou sobre a avalanche de medidas provisórias enviadas por Lula, a proposta de reforma tributária e os trabalhos da CPI dos Cartões Corporativos.
Na semana passada, o governo enviou ao Congresso o projeto de reforma tributária. Na sua opinião, qual é a disposição da gestão Lula em promover uma verdadeira reformulação do setor?
A posição do partido é que essa deve ser uma verdadeira reforma de Estado. Vamos confrontar o governo com as propostas que vão ser apresentadas pelo partido e por nossos governadores para testar as reais intenções do Planalto. Ainda estamos no início das discussões, mas se o tema receber o caráter de uma reforma de Estado irá contar com a participação e o apoio do PSDB. Defendemos uma reforma em prol do país. No entanto, as MPs podem limitar ou dificultar a tramitação.
O senhor é integrante da comissão especial destinada a analisar mudanças no rito de tramitação das medidas provisórias. Qual a sua perspectiva em relação aos trabalhos desse colegiado?
A comissão tem um caráter suprapartidário, mas nós não seremos inocentes em achar que ela estará imune a pressões da base aliada. Contamos com o apoio dos presidentes do Senado, Garibaldi Alves, e da Câmara, Arlindo Chinaglia. Também existe um consenso no sentido de que as medidas provisórias deixem de trancar a pauta. A nossa expectativa é de que esse debate possa estar descontaminado de politização, para o bem do Congresso, das instituições e do país. Uma coisa é certa: o Parlamento não pode mais ter sua agenda construída em uma sala do Palácio do Planalto. Precisamos buscar um meio-termo onde haja um entendimento sobre a importância desse instrumento como uma ferramenta de gestão pública, desde que norteado pelos requisitos de relevância e urgência.
Além da reforma tributária, outro tema domina a pauta política - a CPI dos Cartões. Quais deverão ser os desdobramentos desse trabalho?
Ontem, finalmente, o PT recuou da intenção de pleitear a presidência da CPMI. Ao fazer isso, o partido nada mais fez do que honrar um acordo que tinha sido estabelecido com as siglas de oposição, dentro de uma concertação democrática. O acordo está cumprido e a comissão será presidida pela senadora Marisa Serrano. Esse é um colegiado que teve sua origem no trabalho do deputado Carlos Sampaio que, inclusive, será membro titular do PSDB. A CPMI deverá mostrar ao país a importância desse que é um instrumento moderno e apropriado de gestão. No entanto, a autorização de uso do cartão, se não for dada dentro de linhas claramente definidas, pode acarretar prejuízos financeiros. Vamos deixar claro que nenhum governo será protegido. O PSDB não vai participar de uma CPMI da qual ele próprio foi ator para construir composições políticas para favorecer A ou B.
Nos últimos dias o presidente tem criticado os poderes Legislativo e Judiciário por supostamente interferirem nos assuntos do Planalto, além de dar declarações provocativas e de viés autoritário. Como o senhor avalia as recentes afirmações de Lula?
O presidente acredita erroneamente que o confortável índice de aprovação popular - atribuído mais a ele do que ao seu governo - lhe dá legitimidade para desrespeitar as instituições. O equilíbrio, a harmonia e a independência dos poderes deve ser maior, mais forte e mais perene do que qualquer presidente da República. Ele cometeu um ato infeliz e recebeu o desagravo não só de toda a magistratura, bem como do Congresso. O presidente não pode achar que, devido às pesquisas de opinião, é maior que as instituições brasileiras.
Como o senhor vê a crise diplomática entre Colômbia, Equador e Venezuela, que está colocando a estabilidade do continente em risco?
Existe um litígio entre Colômbia e Equador devido à uma operação recente em que supostamente houve invasão do território de um país pelo outro. Isso não dá à Venezuela o direito de procurar se envolver nesse conflito de forma intervencionista. Me parece que essa intervenção de Hugo Chávez é o rescaldo da derrota sofrida por ele no plebiscito que prorrogaria seu mandato. A história mostra que uma das formas de desviar a atenção da população é simular e gerar unidade de um país em torno de um conflito. É inadmissível que ele procure participar de um conflito sem relação alguma com seus interesses.
Qual papel se espera do presidente Lula e do Brasil na solução desse conflito?
O Brasil é o país de maior peso em termos econômicos, territoriais e populacionais. Acredito que Lula deva ter isso em mente ao sensibilizar os dois presidentes envolvidos a respeito da necessidade de diálogo.