O PT frustrou seus eleitores e o país, até porque durante toda a sua história o PT se auto-intitulou o arauto, o exclusivista da moralidade, e paga altíssimo preço até por sua arrogância em determinado momento da História. Reconheço sempre o importante papel que o PT teve, desde a reconstrução da democracia, na organização sindical, na militância de base. Mas o PT sempre foi muito intransigente na oposição.
Em busca da hegemonia partidária, o PT, em vez de ser instrumento para transformar o país, quis usar o governo federal para consolidar o partido. Um erro enorme. O aparelhamento da máquina federal pela militância do PT é um prejuízo pelo qual o Brasil vai pagar um preço caro durante muitos anos, porque não se recompõe a qualidade da máquina pública com rapidez. Esta é uma herança maldita, termo que o presidente Lula gosta de usar.
O PT deixa uma herança maldita. Vi recentemente uma pesquisa que mostra que mais de 70% da população consideram o PT igual ou pior que os outros partidos. Acho que o PT terá que fazer uma grande reflexão, repensar o seu papel, analisar, fazer um mea-culpa. Não acho bom para a democracia que o PT deixe de existir como alternativa de poder, mas precisará se reciclar e ter a humildade necessária para reconhecer os erros. Mais do que ao presidente Lula, será cobrado um preço alto do PT pelo desvio de conduta.
O ex-ministro José Dirceu pagou pelo erro do PT?
Ele tinha o poder político, era o grande gerente do governo e não é possível que todos esses desvios, neste volume, pudessem ter ocorrido sem o mínimo de conhecimento das principais autoridades do partido e do governo. Ele se transformou num símbolo de tudo isso que ocorreu. O PT confundiu interesses partidários com interesse público, uma mistura explosiva. O despreparo aliado ao descompromisso com a ética de setores do PT, aliás, o despreparo de boa parte de seus gerentes está levando o Brasil a perder uma excepcional oportunidade de crescer a índices mais próximos dos de países vizinhos ou em desenvolvimento.
E o presidente Lula?
O presidente tem sua parcela de responsabilidade. Não digo em desvio ético, em caixa dois. Mas ele é o presidente da República, e no presidencialismo é absolutamente fundamental que o presidente tenha noção do que ocorre em seu governo. O que se esperava é que seu partido tivesse quadros adequados para auxiliá-lo no governo. E o que vemos é que o PT falhou na gestão e que os quadros do PT são absolutamente despreparados para o desafio de governar um país como o Brasil.
Como fica o PSDB nesse processo? O partido pode contornar as brigas internas para escolher o nome que vai fazer frente ao PT?
Estou longe de imaginar que o PSDB já ganhou essas eleições. Acho que será muito disputada. Não podemos desprezar a capacidade do presidente Lula de se comunicar com uma parcela expressiva da população. O PSDB tem a oportunidade excepcional para chegar à Presidência, mas para isso não pode estar preocupado só com seu candidato.
Estou convencido que a escolha será feita com algum consenso. O PSDB precisa de um projeto, e não enxergar apenas o passado. Precisa apresentar ao país um novo projeto baseado nos êxitos das nossas administrações, com uma visão mundial e adequada na segurança que dará aos mercados, o que é importante para fazermos uma inflexão na política econômica para possibilitar a retomada do crescimento de forma mais vigorosa do que a que estamos assistindo.
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, já se lançou. O prefeito José Serra trabalha nos bastidores. O senhor está na disputa?
É uma virtude o PSDB ter três ou mais nomes em condições de disputar. Uns parecem ter maior força na pesquisa, seja no recall das últimas eleições, seja pelas movimentações maiores que vem fazendo. A partir de março vamos escolher, e não será aquele que simplesmente queira ser o candidato.
Será candidato aquele que consiga conjugar um leque de características que têm chances de vencer as eleições e de construir a governabilidade sustentada forte no Congresso para um projeto de governo. O que tenho dito aos companheiros de partido, sobretudo aos de São Paulo, é que o PSDB cresceu, é outro partido, nacional, e é preciso apresentar ao país um projeto nacional. Se o nosso candidato, e isso pode acontecer, vier a ser de São Paulo, é preciso mostrar uma atenção muito grande com o restante do país.
Um nome de Minas Gerais é natural. Se a decisão em março for nesta direção, estaremos preparados para isso. Se não for, ele estará preparado para construir a unidade, ser um dos artífices desta unidade até chamando à responsabilidade aqueles que eventualmente possam relutar.