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Ultima modificação: 22/05/2012 às 06:19:52
O deputado José Aníbal é entrevistado pelo site Congresso em Foco José Aníbal

O presidente do seu partido, senador Tasso Jereissati, disse que o PSDB vive uma espécie de depressão pós-eleitoral. O senhor compartilha desse sentimento?

 

Não, aquilo foi uma força de expressão que o Tasso utilizou. Tanto que logo em seguida ele disse que era uma ressaca. Claro, após o grande embate político você tem de avaliar os resultados, onde foram cometidos os erros e os acertos. E olhar adiante, principalmente. É hora de balançar a roseira e tirar, de cada qual, o melhor para que o partido crie novas convergências e a unidade partidária se sedimente em torno dessas idéias que vão dar força à ação oposicionista do PSDB. A população nos destinou o lugar da oposição. Elegeu Lula e o PT. O PSDB é oposição junto com outras forças políticas. E nós vamos saber exercer bem esse papel de oposição, na fiscalização, do ponto de vista da ética e da postura desse governo com a coisa pública. E, de outro lado, cobrar a gestão, a capacidade de produzir políticas públicas que melhorem a vida das pessoas. E, finalmente, debater a questão do crescimento. Aliás, muita gente pergunta o que nós propomos. Não, o governo é que tem de propor. Eles ganharam dizendo que fariam o país crescer. Que proponham. Aqui no Congresso nós teremos sempre a disposição de examinar tudo aquilo que for importante para que o país possa crescer. O governo Lula foi incapaz de promover esse crescimento durante os quatro primeiros anos. A expectativa é de que isso possa acontecer. Estamos atentos a isso.

 

 

Nesse momento de reflexão, o partido já descobriu em que pontos errou, quando começou a perder a eleição presidencial?

 

Não é uma questão de onde começamos a perder ou deixamos de ganhar. O candidato da situação desfrutou de uma condição muito privilegiada por poder disputar a reeleição no cargo. Essa é, aliás, a principal deficiência que eu aponto no instituto da reeleição no país. E eu sou a favor da reeleição.

 

 

Sim, mas a reeleição foi instituída no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso. Ele também desfrutou dessa condição...

 

Sem dúvida, esse problema começou quando foi instituída a reeleição. Criou-se essa situação de que quem está num cargo e disputa o mesmo cargo pode permanecer nele. Agora quem disputa outro cargo, embora esteja no Executivo, tem de se desincompatibilizar. A regra tem de ser clara: todos têm de se desincompatibilizar.

 

 

Mas por que o governo FHC não pressionou por essa mudança naquela época?

 

Na época, nós queríamos fazer. É que tinha de fazer uma nova emenda constitucional. Aí se decidiu encontrar um caminho de acomodação. E, como toda acomodação, isso acabou sendo ruim.

 

 

O senhor considera, então, que o presidente Lula acabou se reelegendo, em parte, graças a uma brecha deixada pelo Congresso no governo FHC?

 

Em boa medida, porque ele usou de forma indiscriminada e intensa a máquina pública para conduzir a sua reeleição. Isso criou um favorecimento fortíssimo à candidatura dele. Em segundo lugar, de novo eles instituíram a mentira. Foi impossível no segundo turno fazer o bom debate sobre o crescimento, que era toda uma expectativa que nós tínhamos, sobretudo, pelo fato de Lula não poder mais fugir dos debates. Mas ele foi aos debates e construiu um programa eleitoral no rádio e na TV com base na mentira, associando a privatização a uma coisa ruim. E nós não conseguimos responder. As privatizações são responsáveis pelo fato de o Brasil ser hoje um país moderno em matéria de telecomunicações, com 100 milhões de aparelhos celulares, 50 milhões de aparelhos fixos, dezenas de milhões de reais em investimentos, 70 mil empregos novos. Nos faltou iniciativa.

 

 

Como assim?

 

O PSDB muitas vezes falha em assumir os seus feitos. Quem estabilizou a economia, quem criou moeda forte e dissociou o Brasil da inflação foi o PSDB, com o Plano Real. No entanto, se você fizer uma pesquisa hoje no país vai parecer que foi o Lula. Ele nada mais fez que dar continuidade àquilo que vinha sendo praticado como conseqüência do Plano Real, o exercício dos fundamentos da economia, as metas de inflação, o câmbio flutuante e o superávit primário. Na administração das contas públicas eles falharam muito. O governo continua gastando crescentemente mais com o próprio governo e não consegue investir. Esse é um dos grandes desafios que eles têm de enfrentar. Em certos momentos, falhamos em assumir aquilo que fizemos. O nosso candidato Geraldo Alckmin foi um leão. Não tendo disputado nenhuma eleição nacional, ele conseguiu girar o Brasil inteiro e propor uma pauta no segundo turno, emprego, crescimento e renda, que, na prática, terá de ser a pauta do governo Lula se ele quiser ter algum sucesso. Mas Lula se recusou a discutir essa agenda no segundo turno e preferiu tergiversar, associando privatização a coisa negativa, corte de despesa e desperdícios públicos a coisa ruim.

 

 

Mas os tucanos deixaram de responder no debate ou no horário eleitoral?

 

De um modo geral, tanto no horário eleitoral quanto no debate. Nós queríamos levar a conversa para o plano das políticas públicas, do serviço público, da saúde, da educação, do saneamento, e também para o plano do crescimento, as medidas necessárias para que o país possa crescer, a reforma tributária, como desonerar o custo do investimento no Brasil e tornar as empresas mais competitivas. Isso nós não conseguimos. O PT recusou esse debate e jogou com o Bolsa Família, que foi outra coisa de que ele se apropriou do governo FHC, embora tenha aumentado o número de benefícios. Jogou a privatização como coisa negativa. Não conseguimos mostrar como ela foi positiva, não só nas telecomunicações como em outras áreas, a exemplo da siderurgia. E acabamos deixando prevalecer a agenda do adversário, que, com todo o séqüito de mentiras, acabou levando a vitória. A situação está aí e precisamos saber trabalhar sobre ela, reconstituir boas referências em torno do ponto de vista da opinião pública e firmar a confiança na ação do PSDB como a grande força da oposição.

 

 

Ao passar para o segundo turno, o candidato Geraldo Alckmin adotou, de início, um tom mais agressivo, defendido por boa parte do partido. Foi um erro de estratégia? Ele não favoreceu o presidente, ao deixá-lo na condição de vítima?

 

Não acho que o debate da Band tenha tido qualquer impacto na queda do nosso candidato. Acho que foram os fatos seguintes, quando o PT construiu essa identidade negativa das privatizações, do enxugamento da máquina pública, do corte de desperdício como condição de recuperar a capacidade de investimento do governo. Não conseguimos passar isso adequadamente. O PT passou negativamente para o eleitor. Acabou tornando o debate eleitoral sem nexo para a vida das pessoas. Criou-se aquela situação: "Não estamos entendo bem como vai ser, melhor então continuar como está". Foi uma posição mais conservadora do eleitor que acabou prevalecendo.

 

 

Que ações imediatas o PSDB vai tomar pra se reerguer?

 

Oposição, fiscalização, cobrança e, sobretudo, expectativa de que o governo mande no início do ano que vem aquilo que promete encaminhar. As reformas, as legislações necessárias para que o país possa ter condição de crescimento muito melhor do que tem hoje.

 

 

Que cenário o senhor prevê para 2007 no Congresso? Haverá uma trégua entre governo e oposição?

 

O governo está fazendo uma cooptação deslavada, não tem nada a ver com programa. Até que se entende, governo tem de ter maioria no parlamento. Mas, nesse caso, maioria para fazer o quê? Se não apresentar boas propostas, não criar convergência em torno desse interesse público, das mudanças que cabe ao legislativo fazer, esse governo corre o risco de fazer o mensalão dois.

 

 

O senhor diria que já está havendo isso?

 

Seria precipitado dizer. De qualquer maneira, à medida que você não tem conteúdo ou idéias sobre as quais se constrói a maioria, movimenta os partidos no sentido de dar sustentação ao governo. A hipótese de haver de novo o mensalão é muito forte.

 

 

O senhor foi líder do PSDB no primeiro governo FHC na Câmara e uma das lideranças do partido no segundo mandato. O que costuma mudar na relação com o Congresso de um mandato para outro?

 

O segundo governo do Fernando Henrique teve dois anos muito positivos. Em 2000, quase chegamos a 5% de crescimento. Infelizmente, 2001 começou com a crise do apagão, seguida pela quebra da Argentina, em abril e maio, sucedida pela queda das Torres Gêmeas, em setembro. Se tivesse sido mantido em 2001, esse ritmo de crescimento certamente teria favorecido melhor desempenho do governo Fernando Henrique também no parlamento. O segundo mandato ficou a desejar, em termos de votação e resultados. Se a animação da atividade econômica em 2000 tivesse se reproduzido no ano seguinte, poderíamos ter trabalhado melhor a reforma tributária. Quando você cresce, cria um ambiente mais propício ao debate, à modificação, à reforma. Acho muito importante que este governo promova o crescimento. O presidente está fixando uma meta de 5% para o ano que vem. Não pode ser como neste, uma mixórdia. O governo chegou a prever 4%, depois caiu para 3,25%. Agora, a projeção caiu para 3,2%. Daqui a pouco cai para menos de 3%. Em setembro, o Brasil teve crescimento negativo de 1,2%. Não podemos mais viver nesta situação: anda de lado, anda pra trás, isso não cria confiança.

 

 

O líder do seu partido no Senado, Arthur Virgílio, disse sentir o presidente Lula mais maduro após a reeleição. O senhor concorda?

 

Não. Isso é só jogo de cena. O presidente verdadeiro é o que disse que queria que a oposição voltasse só em 2010. E esse presidente é perigoso, porque tem uma tentação autoritária. Mas a democracia brasileira está enraizada, as instituições funcionam. Isso é apenas um devaneio, ainda que autoritário do presidente Lula.

 

 

Nenhum partido hoje tem mais pré-candidatos à sucessão de Lula: Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves. Que cuidados o partido precisa tomar para não ser derrubado por uma disputa interna?

 

O partido tem de pôr à frente suas idéias, seus propósitos, suas referências de gestão e políticas públicas. É assim que se ganha a eleição. Nós ganhamos a eleição no Plano Real, com a estabilização da moeda e a melhoria da renda da população, com os programas da rede de proteção social. Não se ganha eleição só com personalidades. As personalidades ajudam na liderança, com a capacidade agregadora, mas o partido tem de ter idéias. Para que elas sejam compartilhadas, é preciso que haja unidade e solidariedade no partido. Nós vamos trabalhar nisso, com muito afinco e responsabilidade pública que tem um partido como o PSDB.

 

 

Caberia ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso garantir essa unidade? Ele deve mesmo assumir a presidência do partido no ano que vem?

 

O Fernando Henrique é a principal figura do partido. Se ele quiser ser presidente do partido, poderá ser. O Fernando é presidente de honra do PSDB. A meu ver, tê-lo na presidência da Executiva honraria muito o partido. Mas não sei se isso acrescentaria muito. Ele já tem desempenhando esse papel, conversando com o partido, sugerindo idéias, num processo que logo vai resultar na realização de um congresso, provavelmente em meados do ano que vem, no qual o partido vai sair com mais convergência e unidade.

 

 

O senhor vê risco de haver choque entre essas personalidades do partido?

 

Não acredito. Toda vez que você tem situações conflituosas, enfraquece a sua posição na opinião pública. Nenhuma dessas lideranças quer enfraquecer a sua posição ou a do partido.

 

Nós vamos trabalhar para isso.

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