Depois do escândalo das sanguessugas no Orçamento, a reforma política entrou no topo da agenda do governo e da oposição. Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoiou a idéia de um grupo de juristas, a favor da criação de uma Assembléia Constituinte exclusiva para acelerar a aprovação da reforma no próximo mandato
ÉPOCA- A dois meses das eleições, Lula continua muito na frente nas pesquisas. Alckmin tem alguma chance?
Fernando Henrique Cardoso - Neste momento, Lula está na frente. Mas há um mês, estava muito mais. O Lula está acostumado a ter 40% e perder, não é? Para mim, perdeu duas vezes. O Geraldo (Alckmin, candidato do PSDB) ainda tem chance de ganhar.
ÉPOCA - O senhor chegou a achar que Lula ganharia no primeiro turno?
FHC - Cheguei sim. Agora, não sei qual vai ser o resultado da eleição, mas é preciso evitar essa coisa de quem perde inviabilizar quem ganhou, como no México. E há esse risco, sobretudo se o Geraldo ganhar. É preciso evitar a divisão do país. Quando se divide um país, como no México, leva muito tempo para restabelecê-lo. Quem é homem de Estado tem de pensar na nação. Lula começou com o discurso de elite contra povo, pobre contra rico. Esse negócio é perigoso, porque é demagogia. Ele parou um pouco, mas não sei o que vai acontecer até a eleição. Se o Geraldo ganhar, não sei o que vai acontecer. Tomara que o desfecho seja democrático. Acho que o Lula tentará ser, e não tenho nenhuma desconfiança em relação a ele. Mas talvez seja complicado por causa das forças em volta do partido (o PT). Esse é o grande desafio do próximo presidente: evitar a cisão do país e buscar mecanismos de reforma política.
ÉPOCA - O Brasil está rachado?
FHC - A cúpula está rachada, mas o povo não. O povo está indiferente. Agora, se continuar assim, ele não vai continuar indiferente. Vi isso no Brasil em 1964. Só não é a mesma coisa, porque não há agora a Guerra Fria e o país está vacinado contra a ditadura.
ÉPOCA - O senhor acha que uma aliança nacional em torno de um programa consensual tem viabilidade?
FHC - Acho que teve em 2003. Depois da transição pacífica que fizemos, pensamos que o PT iria caminhar para uma convergência. Mas eles tomaram a decisão oposta. Quem definiu que o PSDB era o inimigo principal foram eles. Foram fazer as alianças que fizeram com o outro lado. Não com a direita, mas com o atraso.
ÉPOCA - Mas, na verdade, a base política deste governo e a do seu são muito parecidas.
FHC - O Luiz Werneck Viana (cientista político) disse que o problema do Brasil é saber quem comanda o atraso: PT ou PSDB. Mas agora quem está no comando é o próprio atraso. O problema deste governo não foi a base. A base é a mesma. Só que o Lula não manda nada. Para comandar, você precisa saber para onde vai. Mas a sensação é que eles não sabem. O projeto deles é o nosso. Talvez nem haja outro, porque a História não tem projeto novo a todo momento. Mas então que eles assumam e parem de ficar fingindo que é herança maldita. Claro que, se o Lula for eleito, a eleição dá energia política. Mas o Lula não tem paciência para esse jogo. Lula mais conversa com o país que administra ou faz política. Ele é mais simbólico que efetivo. E, se exagerar muito no simbólico, fica sem comando.
ÉPOCA - Quais as conseqüências dessa sucessão de escândalos no Congresso?
FHC - Dizem que as sanguessugas começaram em meu governo. Mas quem começou com sanguessugas? Com o Pedro Álvares Cabral. Não é essa a questão. A questão é que as sanguessugas se tornaram insuportáveis. Chega um momento em que passa do limite, com efeitos desestabilizadores. Os próprios parlamentares sentem que estão perdendo o solo. Muitos deputados têm me dito: "Olha, não vou mais ser candidato". Ontem, um me telefonou e disse: "Presidente, estou desesperado. O Congresso é uma coisa que não funciona, não sei o que estou fazendo aqui". É possível isso? Como pode haver uma democracia sem parlamento? Se fosse em outra época, essa desmoralização do Congresso dava em ditadura. Agora, dá a sensação de marasmo, de que nada anda. Essa questão é a mais urgente.
ÉPOCA - Em seu governo, todo mundo já sabia da necessidade da reforma política. Por que nada foi feito?
FHC - Como presidente, disse que a reforma política era com o Congresso, porque queria fazer as outras reformas. Agora, não tem mais jeito. A reforma política só vai acontecer em crise. O Plano Real só funcionou porque estávamos em crise, com escândalo dos anões, inflação, tudo junto. Na crise, você tem espaço se tiver liderança.
ÉPOCA - A reforma política hoje tem a mesma urgência que tinha o Real?
FHC - Precisamos de um Plano Real na política, como disse o economista Albert Fishlow. Em meu governo, a questão era econômica. É claro que o Brasil tem desafios econômicos, tem de crescer mais, mas aprendemos a manejar a economia, sabemos qual é o problema. Ele é grave, mas está circunscrito à falta de capacidade do governo de investir. Quando o Lula foi para o governo, sabe o que pensei? Disse a ele: assim como eu tive de enfrentar a inflação, você tem de enfrentar a questão da segurança. Pensei que fosse o mais dramático. Mas você não enfrenta a insegurança com a desmoralização política.
ÉPOCA - A fidelidade partidária é o mais importante na reforma política?
FHC - Lei de fidelidade partidária é bom, mas não vai resolver a indiferença entre o eleito e o eleitorado. Reforma política é reforma do sistema eleitoral. Tem de botar o voto distrital no Brasil, porque precisa haver uma relação mais próxima do eleito com o eleitorado. Hoje, não há nenhuma. Quem vota não sabe em quem votou e quem foi eleito não sabe por quem foi votado. Falam em instituir o sistema do recall no Brasil (o mecanismo americano por meio do qual os eleitores podem cancelar um mandato e convocar novas eleições). Mas como? Recall só pode existir quando um distrito que votou no candidato não o quer mais. No Brasil, ninguém sabe em quem votou. É preciso buscar uma forma de identificação, de laço. Eu era favorável ao voto distrital misto. Agora quero o voto distrital puro. O misto se justificava por causa das minorias, como os partidos comunistas e os verdes. Mas esses partidos vão desaparecer com a cláusula de barreira e vão se misturar aos outros. Então, para que misto? Vai direto para o puro. Pode começar pela eleição para vereador em 2008.
ÉPOCA - O presidente é quem vai ter de comandar a reforma política?
FHC - Acho que sim. Não sei se vai haver liderança para fazer uma reforma política. Se não houver, vamos pagar um preço.
ÉPOCA - Lula não é um líder?
FHC - Ele é. Foi o que aconteceu no PT. Sobrou o Lula, porque ele é líder. O Lula é grande tático, mas não é um estrategista. A liderança dele é tática. Ele sempre se sai bem taticamente, mas vai para onde? Ele é muito intuitivo. Mas, no mundo moderno, é preciso mais que intuição.
ÉPOCA - E o Geraldo Alckmin?
FHC - Ele tem tudo o que é necessário para ser presidente, ponto.
ÉPOCA - O senhor afirmou recentemente que José Serra era o mais preparado para ser presidente e pegou mal.
FHC - Não pegou mal. Todo mundo sabe que eu acho isso. O Geraldo também sabe. O Serra está preparado para ser presidente. É experiente. O Geraldo também tem experiência. Foi deputado e se saiu bem como governador. O mais difícil era o Lula, que tinha menos experiência e pagou um preço por isso. Agora, existem vários tipos de liderança. O Geraldo consegue, sem ter o carisma do Lula, manter uma boa conversa com a sociedade. Você verá no horário eleitoral na televisão, porque a conversa com o país é televisiva. Costumo dizer o seguinte: liga a TV, tira o som e veja o jeitão da pessoa. O grosso da população está mais interessado no jeitão da pessoa que no discurso. Você tira o som do Lula e vê que ele fala. A Heloísa Helena fala também. O Geraldo fala. Ele não fala com os mesmos públicos que ficam entusiasmados com a Heloísa Helena, mas fala.
ÉPOCA - O sociólogo Francisco de Oliveira deu uma entrevista recente em que lamentou o fato de a política ter se tornado irrelevante. Ele não está certo?
FHC - Quando ele diz que a política é irrelevante, tem no horizonte a revolução. Política para ele é tomar decisões que mudem a estrutura do poder. Nesse sentido, ele tem razão. Hoje você não tem no contexto atual uma revolução social. Para surpresa de todos nós, educados com a idéia da revolução e do conflito de classes, hoje o conflito é religioso ou nacionalista. E o capitalismo não vai mudar num horizonte previsível de tempo. Se você quiser dar murro em ponta de faca, pode dar à vontade, mas sua mão vai ficar machucada. A faca não vai entortar por isso.
ÉPOCA - A globalização não diminuiu o poder de manobra dos governos?
FHC - Acho que é o contrário. Você acha que o centro das decisões era maior no Brasil no passado? Isso é mitologia. Como você era desconectado, pensava que era livre. Mas não era. Era irrelevante. Tinha muito menos possibilidade de fazer alguma coisa.
ÉPOCA - Mas o ritmo de crescimento da economia brasileira só diminuiu nas últimas décadas. O que o Brasil ganhou com a globalização?
FHC - As pessoas falam que não cresceu o PIB, mas isso é uma certa ilusão. No Brasil, tivemos investimentos diretos produtivos de mais de US$ 200 bilhões após o Plano Real. A base produtiva mudou inteiramente. O Brasil hoje é outro país. Pega a indústria têxtil no passado e a de hoje. Ou a de calçados, de móveis... Para não falar de avião, cimento, siderurgia. Tudo mudou completamente. Houve um grande investimento, não só externo como interno também. E, como o Brasil é remoto diante do centro do mundo, a globalização não nos impediu de ser um pólo aqui na região. Exportamos hoje mais manufaturados que nunca em nossa História. Para quem? Para a América Latina e para os Estados Unidos. Encontramos um eixo que nos permitiu certa integração. No passado, estávamos voltados para dentro e para uma indústria de segunda ordem.
ÉPOCA - Por que as pesquisas mostram que sua imagem é negativa e mostram que ela pode atrapalhar a campanha do PSDB?
FHC - Veja o Tony Blair como está lá. É fadiga de material. Inevitável. Sempre sou muito bem recebido em qualquer lugar a que vou. O brasileiro é muito gentil. Nunca sofri a menor agressão nem aqui nem fora. Uma vez estava com a Ruth (Cardoso, mulher de FHC) na Grécia, no aeroporto, e havia um casal com duas crianças. Olharam e chegaram mais perto. "Eu acho que conheço você. É da Globo, né?" Eu disse: "Era, mas acabou meu contrato".
As dez regras de ouro de FHC
As melhores dicas do livro que o ex-presidente lança nesta semana
Em Cartas a um Jovem Político (editora Campus), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso retoma o que diz ser seu maior prazer: ensinar. Seu novo livro traz conselhos para quem deseja tentar a sorte na carreira política. Seus principais conselhos:
1- Seja influente.
Regra de ouro do ex-presidente: para poder convencer os outros é necessário saber falar. "No Brasil, você pode escrever o que quiser, não tem importância. O que vale, no fim das contas, é o que você fala."
2- Não tenha medo do talento dos outros.
O pior erro é disputar com seu subordinado.
3- Aproveite as oportunidades.
O limite entre o senso de oportunidade e o oportunismo pode ser tênue, ensina FHC. Erros são normais. O que diferencia o bom político é "ter coragem para corrigir o erro e enfrentar a derrota. Não insistir naquilo que está errado e saber recuar quando necessário".
4- Negocie.
"Negociar é uma coisa, barganha é outra. Na política democrática, que requer inclusão de adeptos e alianças, não se pode querer tudo. Busque o máximo possível, cedendo em alguns pontos, para preservar o essencial."
5- Boas notícias não dão manchete.
Aceite as críticas da imprensa. "O jornalismo moderno só vê o que está errado porque o raciocínio é que através do desvio é possível ver as tendências do conjunto. É parte do jogo."
6- Seja otimista. "Acreditar que o Brasil é um desastre completo, que só piora a cada dia, é ir contra os fatos - e uma carreira positiva na vida pública vai sempre requerer que você trabalhe em cima de fatos concretos."
7- Não ligue para a impopularidade.
Governar implica tomar decisões impopulares. Isso não é importante. O essencial é explicar sua decisão, e não perder o respeito da população.
8- Tenha um amigo por perto.
O poder traz muitos elogios e o distanciamento do mundo real. Tenha sempre perto um amigo para dizer francamente o que está acontecendo a sua volta.
9- Tenha coragem.
Churchill não era da elite acadêmica, bebia muito e tinha uma mãe controvertida. Mas quando a Inglaterra precisou de um líder corajoso, lá estava ele.
10- Seja idealista.
Ele diz que quem entra na política para ficar rico não está começando pela razão certa. "Se perdemos a capacidade de nos indignar, a politicagem toma conta de tudo."