O advogado e jornalista Hélio Bicudo, 83, anunciou ontem sua saída do PT dizendo que o partido que ajudou a fundar chegou a um estágio incorrigível. Ao contrário de outros dissidentes, que já preparam suas filiações ao PSOL, Bicudo deve ficar sem legenda.
Ativista dos direitos humanos -se notabilizou ao investigar o Esquadrão da Morte no final dos anos 70-, ex-deputado e ex-vice-prefeito de São Paulo (2001-2004), ele afirma que a decisão se deve, principalmente, ao distanciamento do PT de valores éticos e morais. "Não vejo com clareza que essas questões sejam dirimidas por uma direção que vai ter a mesma composição", disse Bicudo nesta entrevista à Folha.
Folha - Por que está saindo do PT?
Hélio Bicudo - Acho que o PT desviou sua rota. O caminho que sempre persegui não está mais nas perspectivas do partido.
Folha - O resultado das eleições internas não indicam mudanças?
Bicudo - A atual direção vai ser mantida e isso compromete minha permanência no PT. O Campo Majoritário vai continuar majoritário. Existem correntes que se dizem minoria que vão compor e se aliar à atual direção.
Folha - Quais são suas frustrações em relação ao partido?
Bicudo - Partido não é uma, duas, três ou quatro pessoas. É uma comunidade. E quando essa comunidade se divide e alguns assumem toda a direção, dão as linhas partidárias e de atuação, e quando essas linhas se deslocam do ideário do partido, ele deixa de ter sentido como sigla.
Folha - Na sua opinião, de quais ideais o partido se afastou?
Bicudo - O partido se afastou dos ideais éticos e morais.
Folha - Isso é incorrigível?
Bicudo - Acho que sim. Não vejo com clareza que essas questões sejam dirimidas por uma direção que vai ter a mesma composição.
Folha - O senhor pretende se filiar a outro partido?
Bicudo - Não. Não quero mais me prender a um partido político. Mas vou continuar militando na área de direitos humanos.
Folha - O presidente Lula receberá seu voto caso tente reeleição?
Bicudo - Não votaria em Lula de novo, por tudo o que está acontecendo. Do meu ponto de vista, o presidente da República não pode se eximir de fatos que acontecem na sua administração. E os fatos são desabonadores. O presidente não pode ignorar, fazer ressalva de que está sendo traído, e não fazer coisa nenhuma. Existem erros por ação e erros por omissão. Se não houve atuação na compra de deputados, houve omissão.