Primeira mulher a ser eleita para governar o Rio Grande do Sul, a deputada Yeda Crusius enfrentará, a partir de 1º de janeiro de 2007, o desafio de superar a maior crises enfrentada pelo seu estado. Ex-ministra do Planejamento do governo Itamar Franco, ex-presidente do Instituto Teotônio Vilela e atualmente cumprindo seu terceiro mandato consecutivo na Câmara, Yeda concedeu nesta terça-feira entrevista à Agência Tucana/Diário Tucano. Ela destacou a expressiva vitória nas últimas eleições, defendeu a necessidade de uma urgente reforma tributária e traçou como deve ser o relacionamento com o governo Lula e o papel do PSDB na oposição. "Cobrar respostas é a obrigação que o eleitor nos concedeu", afirmou a parlamentar.
A senhora iniciou a campanha eleitoral como terceira colocada nas pesquisas e venceu as eleições com 53,9% da preferência dos eleitores - quase meio milhão de votos a mais que o segundo colocado, o petista Olívio Dutra. A que deve essa vitória?
Primeiramente, ao modo como eu expus as dificuldades do governo do estado, explicando, por exemplo, a necessidade de se reorganizar as contas públicas. O Rio Grande do Sul tem quase 19% de sua receita comprometida com dívidas e isso está emperrando o desenvolvimento do estado. Além disso, a população conhece minha trajetória pessoal e minha vida política.
A senhora enfrentou meses de embates acirrados. Como foi a campanha eleitoral?
A campanha teve dois enfoques distintos, refletindo os dois turnos. No primeiro turno, questionei quais os principais problemas do nosso estado. Por que as estradas estão ruins? Por que a população mais carente não conta com remédios gratuitos? Não apenas questionamos, mas também propusemos soluções para essas questões. Já no segundo turno o embate regional refletiu o nacional. Fui companheira permanente de Geraldo Alckmin em suas viagens pelo estado e senti, em nível regional, os mesmos problemas enfrentados por ele. A pauta no estado era similar à agenda para a disputa do Palácio do Planalto: o mesmo terrorismo envolvendo a questão da privatização e dos direitos trabalhistas, a seqüência de ataques pessoais e até difamações pessoais. Mas nada disso ajudou os petistas. Vencemos o PT com o maior percentual de diferença de votos das quatro últimas eleições. O resultado final também foi significante. Tive praticamente 500 mil votos de diferença, um fato inédito no estado.
Com está sendo conduzida a transição com o atual governo?
O governador Germano Rigotto (PMDB) montou uma equipe de transição composta de cinco secretários e nós já estruturamos um grupo para conhecer a realidade dos números em cada área do governo - das secretarias às estatais. A questão das folhas de pagamento e da dívida do governo são as mais importantes. Além disso, já iniciamos gestões com a Assembléia Legislativa para que não seja votado nenhum projeto que aumente as despesas, o que foi acatado pelos deputados estaduais.
A senhora será uma governadora da oposição. Como vai ser o relacionamento com o governo federal?
Precisamos avaliar os principais pontos de relacionamento com a administração petista. Quero saber como vai ficar com a falta de repasses da Lei Kandir. O governo federal colocou o câmbio no chão e fez no estado 60 mil desempregados, apenas no primeiro semestre desse ano, em setores como calçados, móveis e têxteis. A questão cambial jogou o Rio Grande do Sul em uma crise violenta. A taxa de juros alta somada à falta de investimentos deixou a estradas em estado de calamidade e o porto de Rio Grande sem modernização. O aeroporto da capital está com obras paradas. São pontos deverão ser resolvidos. No entanto, se nós fizermos o dever de casa em dois anos, zerando o déficit, com prioridades bem claras, poderemos recuperar as finanças com crescimento sustentável.
Como será tratada a questão tributária pelos governadores tucanos?
O principal ponto da agenda dos governadores do PSDB será a reforma tributária. A reforma é essencial para um novo equilíbrio federativo. A guerra fiscal, que tanto prejudica o Rio Grande do Sul, deve acabar.
O candidato do PSDB à Presidência obteve a maioria dos votos no Rio Grande do Sul tanto no primeiro quanto no segundo turno. A que se deve esse desempenho no estado?
Nessa eleição, ficou claro que o povo gaúcho não se conforma com nada que o faça sentir enganado. Depois de quatro eleições em que Lula foi campeão de votos no Rio Grande do Sul, Alckmin teve, nos dois turnos mais votos que seu adversário, porque o estado, após o mensalão, se sentiu traídos nos valores éticos, com a falta de lealdade, honestidade e com a corrupção. O riograndense provou que rejeitou permanente o mar de lama patrocinado pelo PT.
Na sua avaliação, o PSDB saiu fortalecido das últimas eleições?
O partido fez seis governadores e vai governar 51% do PIB e 42% da população. São números expressivos. Vamos administrar três estados [São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul] com economia pujante e forte presença no cenário político e elegemos quatro vice-governadores. É um resultado espetacular frente à potência que foi o uso da máquina federal pelo PT nessas eleições. Tenho certeza que os governadores do PSDB vão ser fundamentais no redesenho do pacto federativo. Em relação ao Congresso Nacional, tenho segurança de que a oposição cumprirá seu papel. Em qualquer país democrático, cabe à oposição estar atenta a falhas e desmandos do governo vencedor. Depende de nós exigir respostas a perguntas como a origem do dinheiro para o dossiê contra os tucanos e o que foi feito com os R$ 11 milhões destinados a imprimir as cartilhas que seriam distribuídas pelo Planalto. Cobrar respostas é a obrigação que o eleitor nos deu nas urnas.